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CHINA
2017-02-28
Um MBA na China, uma experiência internacional

China, no oriente do outro lado mundo. Muitos dos leitores devem estar com certeza familiarizados com o país dada a sua importância no comercio internacional, historia e dimensão. Outros nunca se terão aventurado a descobrir em pessoa essa terra no oriente longínquo. O meu nome é Filipe Castro, um Português pelo mundo, atualmente em Xangai.

A China não é, no entanto, o primeiro lugar em que vivo fora de Portugal. Para enquadrar esta historia temos que recuar um pouco no tempo. Até 2013, quando primeiramente tomei a decisão de viver noutro país. Em retrospetiva não foi uma decisão fácil, mas necessária.

Formei-me em Engenharia Informática pela Universidade do Porto em 2010 e comecei a minha carreira na maior empresa nacional na área de telecomunicações em Lisboa (PT), sendo aceite ainda antes de terminar o curso na totalidade. Aí adquiri experiencia e cresci profissionalmente durante 3 anos em varias funções e departamentos. A certo momento senti que não me estava a ser possível progredir à velocidade e de acordo com os objetivos que ambicionava (muito devido à conjuntura micro e macroeconómica). Mesmo com qualificações e avaliações de performance citadas como excelentes, decidi demitir-me e aceitei quase de imediato uma nova posição numa empresa em Estocolmo, que me fez uma proposta aliciante e difícil de recusar.

Talvez em muitos aspetos este percurso não seja o mais comum, dado que a decisão de emigrar foi uma escolha racional e positiva, focada no crescimento e não pressionada pela falta de oportunidade profissional na área, descontentamento ou pressão da conjuntura económica inerente, mas sim pela minha ambição de alcançar e realizar mais. Não encaro a mudança de emprego como uma quebra com o passado, e tenho orgulho de em toda a minha vida profissional ter sempre saído pela “porta da frente”, sempre recomendado e mantendo todos os contatos estabelecidos como ponte para o futuro.

Quanto à Suécia, muitos me perguntam sobre a dificuldade de adaptação. Todas as sociedades são diferentes, claro, e em nenhuma é fácil a integração se não tivermos uma mente aberta e capacidade de harmonização com a cultura local (qualidades que felizmente muitos dos nossos conterrâneos possuem). Os salários são muito elevados, mas os custos de vida também, e pessoalmente as grandes diferenças revelaram-se noutra dimensão positiva: Rotina diária, no trabalho e estrutura organizacional.

Morar no centro de Estocolmo eliminou a necessidade de conduzir diariamente, passando ser possível ir a pé ou de bicicleta para o escritório (o nosso CEO era especialmente fã desta ultima, incitando todos a seguir o seu exemplo). A estrutura organizacional era completamente horizontal (o nosso CEO, CTO e toda a restante equipa trabalhavam lado a lado num espaço aberto), levando a uma comunicação mais efetiva (em inglês e algum sueco), elevada produtividade, empenho e confiança mútua. Os horários e a luminosidade eram diferentes também, escurecendo muito cedo no inverno (perto do meio-dia) e o reverso no verão, afetando profundamente os nossos ritmos biológicos.

Vivi em Estocolmo durante 2 anos, e apesar do frio e trabalho intenso atingi o novo patamar profissional que desejava – projetos internacionais, parte da “equity” como bónus, trabalhando com tecnologias de topo, colaborando com colegas de todo o mundo, aprendendo novas qualificações, línguas e viajando frequentemente até aos Estados Unidos. Decididamente tinha atingido um novo patamar, mas por outro lado sentia que faltava ainda algo, e novamente uma decisão peculiar veio alterar o meu destino.

No passado tinha posto a hipótese de tirar um MBA, mas a falta de experiência internacional, o facto de ter de efetuar uma pausa na carreira para tirar um a tempo inteiro, e a indecisão sobre qual instituição escolher criou-me algumas reservas. Anteriormente tinha decidido que o momento não era ainda oportuno, mas reavaliei a decisão.

Durante o período de férias, embarquei numa aventura pessoal e viajei até à China para visitar amigos que conheci quando estudava. Apesar de já falar algum japonês básico, decidi que quando voltasse iria também começar a aprender mandarim, reconhecendo a sua cada vez maior importância linguística. Combinando estes elementos, e após uma pesquisa extensiva decidi que a única escolha logica seria candidatar-me a 3 escolas, sendo uma delas o melhor MBA na Ásia (segundo o Financial Times) como escolha limite (significando a menor probabilidade de ser escolhido). Em suma, decidi arriscar começando assim uma nova fase.

O processo de candidatura foi difícil, especialmente porque ainda trabalhava a tempo inteiro, mas após preparação e meses de um longo processo, fui aceite no programa de MBA da CEIBS em Xangai. Tenho orgulho de ser o 3o Português a alguma vez ser aceite na historia da instituição e o único nos últimos 3 anos (a instituição foi fundada em 1994, através de um protocolo bilateral entre a União Europeia e a China). Obtive uma bolsa de mérito e fui ainda eleito como um dos embaixadores oficiais do MBA, tendo a função de dar a conhecer a instituição, criar contatos e relatar a minha experiencia a atuais líderes e potenciais futuros candidatos a uma instituição de excelência.

Viver na China não foi fácil à partida, exigindo adaptação (física e mental) e grande força de vontade, mesmo com alguma base linguística à priori. Tudo é radicalmente diferente da Europa/EUA, desde a comida, modo de vida, organização e escala da cidade (cerca de 25 milhões de pessoas), transportes até às relações sociais. Felizmente com preparação antecipada, o facto de já ter visitado no passado, ter contactos e relações na China, o apoio do Consulado Português em Xangai (o qual desde já felicito pelo excelente serviço consular a expatriados) e dos meus caros colegas ajudou muito a suavizar o processo.

Passei meses em preparação intensiva para adquirir novos conhecimentos nas temáticas de economia e gestão, assim como domínio do mandarim, pois apesar de o MBA ser totalmente em inglês, é vital para o conhecimento mais profundo da sociedade e dos processos e protocolos negociais. Senti que necessitava de por todos estes conhecimentos combinados em prática, para melhor explorar um setor fora da minha esfera de domínio.

Recentemente, e através de um protocolo entre a instituição de MBA e a ONU tive a oportunidade de ser escolhido para trabalhar na sede das Nações Unidas em Nova Iorque durante um trimestre. Como parte da subdivisão UNDP, estive envolvido propostas de fundos e cooperações entre nações para fomentar o desenvolvimento e trocas tecnológicas, tendo em conta o macro objetivo de combater alterações climáticas e o cumprimento dos objetivos do milénio (2030), e posteriormente publicado um artigo de retrospetiva para inspirar outros com a minha experiencia no setor intergovernamental.

Atualmente vivo ainda em Xangai, com o MBA a terminar brevemente em abril de 2017. À data presente encontro-me com mente aberta, avaliando a próxima oportunidade para continuar a minha carreira, mas sempre com Portugal no coração. Em cada passo que dou reflito das lições de Portugal, do que significa ser um Português no mundo, no Nosso papel na Europa, na Ásia e no mundo. 

Os meus agradecimentos ao PORT.COM, em especial ao Dr. Abílio Bebiano, pela oportunidade de expressar este breve resumo da minha experiência no estrangeiro.

 

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