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PORTUGAL
2017-11-11
José Redondo e a paixão pelo râguebi

Fundado por José Redondo, que desde sempre foi o Presidente da Assembleia Geral,  o Rugby Club da Lousã, atualmente com mais de 40 anos de existência é, sem qualquer  sombra de dúvida, um dos mais importantes clubes de rugby em Portugal.

Como começou a paixão pelo râguebi? Tem alguns episódios interessantes que nos queira contar?

Quando estudava no liceu em Coimbra, dois ou três amigos convenceram-me a aparecer no campo de Santa Cruz para experimentar uma modalidade que eu praticamente nunca tinha ouvido falar. Cheguei lá, era râguebi.  Foi difícil... o campo era pelado! Logo os primeiros contactos com a modalidade, naquela altura, era colocar 10 ou 12 rapazes à nossa frente e nós termos que os placar - que era o chamado teste de fogo - para saber se tínhamos realmente coragem e vontade de fazer o desporto. Portanto a partir daí começou! 

Episódios interessantes recordo um porque na altura já andávamos há 3 ou 4 meses - segundo eles me diziam para estrear o Estádio Universitário de Coimbra. Um dia eu estava-me a equipar num dos balneários do Santa Cruz e aparece o Afonso, Dux Veteranorum naquela altura, que nos informa que naquele dia já podíamos ir treinar ao Estádio Universitário. Eu meto-me no Citroen 2 cavalos que tinha naquele tempo e vou por ali abaixo: desço a Praça da República, atravesso a Rua da Moeda, por ali fora chego ao estádio sendo realmente um dos primeiros a chegar lá: eu, posso-me gabar, é que fui, realmente, o primeiro atleta a pisar o relvado do Estádio Universitário de Coimbra. Portanto para mim é talvez o episódio mais marcante e que recordo como interessante.

 

Foi jogador e também treinador. Como aconteceu e quais são os maiores feitos alcançados em qualquer uma destas situações?

Porque é que eu fui treinador? Eu, entretanto, acabei os estudos, vim do ultramar onde estive 27 meses a cumprir serviço militar e cheguei a Portugal, à Lousã em 71. Nessa altura recomecei a jogar na Académica, mas o meu objetivo era lançar o râguebi na Lousã. Tentei durante algumas vezes angariar uns miúdos da terra, para os juntar e conseguir constituir uma equipa, mas não foi possível. Em 73, tomei uma decisão que eu considero arrojada e que traduz um pouco a minha maneira de ser... quando se me mete uma coisa na cabeça, não desisto com facilidade! Fui dar, durante um ano, aulas de educação física para a Escola Preparatória Carlos Reis. Naquela altura os militares que tinham educação física na tropa estavam habilitados a dar aulas de educação física, razão pela qual ainda agora me tratam, na Lousã, por professor quando eu no fundo só fui professor um ano e nunca estudei para ser professor…

Eu retirava aqui à empresa 16 horas semanais e logo na primeira aula que dei, a 25 de outubro de 1973 -  uma data memorável -, mostrei o balão, uma bola de râguebi aos alunos e todos se riram porque pensavam que eu que não regulava muito bem. E alguns deles até diziam que era uma bola de futebol defeituosa e que eu não tinha, se calhar, dinheiro para comprar uma bola boa e que levava uma espécie de um balão para a aula. Portanto a partir daí, começou, digamos, esta força que é o râguebi atual. Foi esse o pontapé de saída.

 

Para além de jogador e treinador, também esteve presente na organização e dinamização do râguebi na zona centro. Que intervenções teve neste domínio e qual a sua contribuição para o desenvolvimento e projeção desta modalidade? 

A partir daí, comecei a lançar as bases do râguebi na Lousã (na altura com o professor Cabral Fernandes e mais dois ou três amigos) e fundámos o Comité de Râguebi de Coimbra. Portanto eu fui logo, um dos fundadores do Comité, que foi uma das maneiras a partir de 73/74 dinamizarmos o râguebi na zona centro. E durante muitos anos, fui dirigente do comité, ao mesmo tempo que era treinador de todos os escalões porque não havia treinadores aqui na região e muito menos aqui na Lousã. 

Portanto eu treinei, durante uma quinzena de anos, todos os escalões do Râguebi Clube da Lousã, passando todos os dias no estádio, ou a treinar sub 10, sub 12, sub 14, sub 18, seniores e ao mesmo tempo ia às reuniões, todas as segundas feiras, ao comité de râguebi de Coimbra, que era nas instalações do Râguebi Clube de Coimbra. 

Engraçado que nesse Râguebi Clube de Coimbra também fui um dos fundadores. Foi fundado pelo Manuel da Costa e mais uns quantos amigos, e até me gabo de ter um prazer enorme nisso, porque sou o sócio nº. 6. Nós estávamos em casa do Manuel da Quinta, era necessário constituir uma direção e o Manuel da Costa, que nós chamávamos amigavelmente como Manuel da Quinta, arranjou logo três sócios. Ele, a mulher e o filho. Um, dois, três. O irmão e a mulher, quatro, cinco e eu disse: então eu sou o sexto! Pronto! E fiquei o sócio nº. 6, fundador do Râguebi Clube de Coimbra, que agora tem uma projeção enorme a nível de râguebi nacional.

 

Como aconteceu fundar o Râguebi Clube da Lousã e que dificuldades e contratempos teve na altura e como os conseguiu ultrapassar?

Bom, quando eu dei aulas no ciclo preparatório, evidentemente no ano seguinte deixava de ser professor e de ter contacto com os atletas, pelo que percebi que era difícil realmente continuar com a equipa. Então, fundei um Clube em que, logo no primeiro ano, o presidente tinha, salvo erro, 14 anos, o tesoureiro tinha 12 anos e eu fui sempre o presidente da assembleia geral. Engraçado é que desde essa data, até há cerca de 4 anos, o presidente da assembleia geral, partindo do princípio que se um dia eles falhassem ou se o clube acabasse, era eu que ficaria com a chave… paciência… 

E essa foi a grande ação que eu tive naqueles 40/50 alunos, que me obrigou a criar-lhes o espírito de jogadores de râguebi e que, durante cerca de quase 20 anos, em que todas as segundas feiras, religiosamente às seis e meia da tarde, fazíamos uma reunião de cerca de 50 minutos com os meus ex alunos da escola. E era aí que também combinávamos o programa para o fim de semana seguinte, onde é que se faziam os treinos, que espaços arranjávamos para treinar, etc.. Bom, o que sei é que fomos constituindo de raiz e que hoje é um clube desportivo com algum relevo.

 

Costuma-se dizer que o râguebi possui 5 valores: a integridade, o respeito, a solidariedade, a paixão e a disciplina. Considera que com a sua iniciativa de trazer o râguebi para a Lousã tem contribuído para que a juventude local assuma e pratique estes valores como padrão de vida?

Não tenho qualquer dúvida. Realmente, aquilo que lhes fui transmitindo, fruto das reuniões que ia fazendo com eles, foi ensinar-lhes râguebi: não só a jogar dentro do espaço do relvado (que na altura não havia relvados, era tudo “ervados”), mas sobretudo transmitir-lhes uma série de valores sob pena de - caso não conseguisse - eles não seriam verdadeiramente jogadores de râguebi e, de um momento para o outro tudo podia acabar. 

Também, essas tais reuniões que eu falei atrás, tinham esse mesmo esse princípio: transmitir a todos eles esses 5 princípios que aí estão perfeitamente enumerados e que cada vez mais têm contribuído para que a juventude da Lousã, a nível de râguebi, seja uma juventude diferente. Sem dúvida nenhuma e como sabemos, naquele período que estamos a falar da década de 70 e de 80, o país vivia problemas muito complicados a todos os níveis, com a juventude. Sobre a da Lousã, posso dizer isto com um orgulho extraordinário: marcava uma diferença pela positiva! 

 

O apoio incondicional ao Râguebi Clube da Lousã tem merecido o natural reconhecimento do clube dando o seu nome ao estádio, e nas homenagens que lhe tem prestado. Quer falar um pouco da sua atividade no clube e nas perspetivas que prevê para o futuro?

Eu, ligado ao Râguebi da Lousã, também me liguei a outras atividades. Inclusive também era treinador de juniores da seleção do centro. Liguei-me também à Federação, estive muito ligado à constituição duma confraria de râguebi - que ainda existe - e que foi fundada em 1999 e que são, assim, os senadores do râguebi, as pessoas mais… não direi credenciadas, mas aquelas mais conhecidas pela sua ligação à modalidade e, obviamente, também como dirigente da federação alguns anos. Isso deu azo a que eu tivesse tido realmente uma série de homenagens ao longo da vida. 

Daquela que me parece talvez das mais importantes terá sido a medalha de mérito de bons serviços desportivos que me foi atribuída pelo governo em 1999. Está lá na descrição! Fora isso fui durante 2 anos considerado, imagine só, mais do que diretor, fui considerado o segundo melhor treinador do país, isto por um leque de 5, de 5 jornalistas, que votavam nos treinadores todos. As minhas equipas, sobretudo a nível de juniores foram sempre muito interessantes, tinham um bom nível de râguebi, e sobretudo, outra coisa de que me orgulho muito, claro, a Câmara Municipal, também me atribuiu uma medalha.. sei lá, a própria Federação também me atribuiu um prémio de carreira, além dum outro prémio que me deu em tempos.  A nível de jornais também fui premiado várias vezes. Tudo isto representa uma contrapartida que me dá muito orgulho e que obriga a pensar que valeu a pena os sacrifícios, muitos deles que ninguém imagina o que eu passei. 

Devo dizer que quando era treinador, isto num aparte e até pode ser talvez falado, não tinha diretores, não tinha nada eu é que tinha que preparar as camisolas, eu é que tinha que marcar os campos, eu é que tinha que preparar tudo e recordo que muitas vezes tinha que ser treinador de seniores, treinador de juniores, treinador também dos iniciados, dos sub 14, e pelo menos duas ou três vezes, recordo-me de por exemplo, a um sábado ir jogar a Elvas, no domingo de manhã estar a jogar na Bairrada, na Moita, em Anadia e no domingo à tarde estar a jogar na Amadora contra o Estrela da Amadora. Isso aconteceu pelo menos 3 vezes. Imagine a loucura que era sair às 7 da manhã de sábado e chegar à meia-noite, uma da manhã de domingo, passando aqui pela Lousã para dormir umas horas. 

Na altura, como sabe, não havia autoestradas, uma viagem a Lisboa demorava para lá de cinco ou seis horas, para cá outras tantas, e também lhe posso confessar sentimentos confusos quando, ainda agora, vejo uma carrinha de 20 lugares da Toyota - que foi realmente extraordinária para o desenvolvimento da modalidade na Lousã -, foi uma carrinha que as Alcatifas da Lousã ofereceram à Câmara Municipal e que a Câmara disponibilizava para o futebol e para o râguebi. E devo-lhe dizer, agora já nem tanto, mas aqui há meia dúzia de anos, quando a carrinha passava por mim eu sentia um baque no estômago, fiquei tão cansado, tão saturado, que ainda agora é para mim muito difícil entrar num autocarro. É muito difícil mesmo quando passo férias com a minha mulher, quando ando por aí, quando tenho que entrar num autocarro de 40/50 lugares, é um martírio. São estas maluqueiras que fizeram com que o râguebi atingisse o padrão que atingiu. 

 

Mas maluqueiras saudáveis…

Sim, saudáveis, saudáveis… na altura podia ser muito mau, mas hoje são boas recordações… Sabe que nós, todos nós, temos que ter paixões. Isto é uma lei natural da vida. E eu vou-lhe contar um episódio muito interessante que tenho contado já algumas vezes e que se passou com o meu pai. Como sabe o meu pai era um homem duma inteligência e duma perspicácia acima da média, mas não podia com o râguebi. Ele considerava que o râguebi retirava o filho às funções de gestor aqui da empresa do Licor Beirão. Portanto todo o tempo que eu perdesse com o râguebi ele ficava meio transtornado. 

E um dia (foi a minha mãe que mais tarde me contou) ele estava aqui no escritório e um amigo meu vem de Lisboa entra e pergunta: Sr. Carranca como é que está e tal, falou com ele e, depois perguntou: e o seu filho? Oh, responde o meu pai, o meu filho não quer saber disto para nada. O meu filho só pensa em râguebi, para ele tudo é râguebi. E diz esse amigo para o meu pai: Ó senhor Carranca, se calhar é melhor perder tempo com o râguebi, senão andava aí metido no jogo, na droga, e tinha para aí mas era umas amantes… O meu pai, diz a minha mãe que acenou, sorriu um bocado e calou-se. 

Passados dois meses, estávamos aqui no escritório e o meu pai vira-se para mim e diz: ó Zé, quanto é que estamos a dar para o râguebi? E eu disse-lhe um número que teve resposta imediata: ouve lá, não achas que podias dar mais qualquer coisinha? Portanto aquilo que nós pensamos é uma paixão louca, é uma perda de tempo? Não, não é! Antes pelo contrário. E depois quando sou reconhecido pelos amigos, quando sou reconhecido pela população, quando sinto que já passaram por mim mais de 800 atletas de râguebi, e quando os vejo na rua, e eles me cumprimentam e me fazem uma festa é para mim, um prazer extraordinário. Não pode imaginar. Ah e não falei ainda, mas está lá no curriculum, a história da atribuição do nome do estádio que foi realmente também outro momento alto da minha presença junto do Râguebi Clube da Lousã. Foi a atribuição do nome do estádio.

 

Como administrador do Licor Beirão e toda a vida trabalhando na empresa é natural que tenha aproveitado a oportunidade para ser a Marca a patrocinar o Clube, desde o início do clube até aos dias de hoje, não é?...

É verdade...

 

..tem sido um esforço financeiro, agradável, simpático e voluntarioso. O que é que o Licor Beirão tem contribuído para o desenvolvimento do clube, da modalidade e a solidificação?

Repare: o Licor Beirão contribui, não há duvida. Todos os anos temos um contrato com o clube, mas mais do que o Licor Beirão, eu próprio. Eu próprio, realmente pessoalmente, dispenso muito da minha capacidade económica para apoiar o clube. Mas aí, apoio o clube noutros vetores que é na construção de condições para que o clube em termos de instalações desportivas, se desenvolva. Ainda há 3 ou 4 anos, ofereci uma casa que está no estádio que é para utilização dos jogadores estrangeiros, tenho lá mais um estúdio para a utilização de outros jogadores, salas para a colocação de material desportivo, este ano fiz um investimento relativamente grande na construção de mais dois balneários, uma sala de fisioterapia, uma sala para arrumos, mais uma sala de direção, além de um belíssimo bar no topo da bancada, portanto, eu penso que se realmente a vida me tem sorrido e eu tenho capacidade é aí que realmente não me custa gastar dinheiro. Aquilo que eu faço no clube, como dizem os meus filhos, é quase um “paitrocínio” e o râguebi para nós, para a família é quase como o quinto filho. É entendido como isso. 

 

Com estas perguntas e respostas, há alguma coisa mais que queira acrescentar?

Não sei. Penso que está, que está… tudo. Estou convencido que as pessoas, sobretudo as que vivem longe de Portugal, gostarão de saber de histórias e essas histórias é que são importantes.

No resumo que se fez há uma coisa muito importante que é o contributo que eu dei para as dezenas de clubes que vieram para a Lousã, que estiveram cá cerca de 8 dias, quase todos 8 dias… Portanto veio mais de meia centena de clubes, para a dinamização do turismo, como é óbvio. Porque depois de aqui estarem, e eu posso-lhe falar de dezenas de casos concretos a que eu assisti, rapazes que jogaram aqui na Lousã, com 18, 19, 20 anos e que mais tarde, depois quando casaram, vieram cá fazer a lua de mel, ou passaram pela Lousã, porque foi um sítio que lhes deixou boas memórias.

Portanto nesse aspeto, o Rugby Club da Lousã, contribuiu bastante para o desenvolvimento do turismo local. Da mesma maneira que a Lousã, eu também consegui viajar por muitos países fruto dos muitos conhecimentos que fui tendo como é óbvio, isso é naturalíssimo, também muitas centenas de jovens lousanenses já viajaram pela Europa e por África a acompanhar o clube. 

Outro fator que também deve ser referenciado que é muito interessante é que fruto das primeiras viagens que fiz em 1983 a Prads, foi uma coisa na altura fantástica, fomos de autocarro até lá, também levei o presidente da câmara e uma comitiva engraçada de pais de alunos, depois fruto desses intercâmbios que fomos fazendo ao longos deste trinta e tal anos, a Lousã acabou por se geminar com a vila de Prads, em França. Portanto uma geminação que tem funcionado muitíssimo bem. Sobretudo a nível desportivo. 

 

… Isso é interessante…

É. Essa geminação foi, foi realmente outro momento muito alto da minha vida associativa aqui na Lousã. Ter contribuído para a geminação entre duas vilas.

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