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AUSTRÁLIA
2018-01-26
A portuguesa que lidera a construção civil na Austrália

Quando é que decidiu emigrar?

Vivi na Austrália dos 7 aos 11 anos e depois vim para Portugal. A transição da Austrália para Portugal foi muito difícil, porque na Austrália morava numa cidade à beira mar e aqui fui para uma aldeia na serrinha do Caramulo que nem televisão tinha. Portanto, eu nunca me adaptei bem a Portugal. E então, assim que terminei a escolaridade, fui para a Austrália até porque o meu pai estava lá na altura.

E depois, como é que foi o seu percurso até chegar à fase de empresária?

O percurso foi interessante. Casei, tinha encontrado o meu marido aqui, mas fui para a Austrália primeiro que ele e casámos lá. Ele aqui tinha um negócio por conta própria e sempre quis começar um negócio na Austrália e então combinámos que, quando o nosso filho mais novo começasse a escola, íamos começar o negócio, mas era mais na área de “land scaping”, fornecer produtos para jardins e para essas coisas, mas em grande escala comercial. Entretanto apareceu esta oportunidade, porque o meu pai tinha uma companhia de cofragens juntamente com uns sócios. Entretanto um dos sócios faleceu e o meu pai, por motivos de saúde, também disse que ia desistir. Ele tinha alguns materiais, nós tínhamos algum dinheiro, quer dizer, não tínhamos dinheiro, tínhamos a casa que hipotecámos para ter dinheiro, e formámos a Pacific Formwork. O meu pai ainda esteve connosco nove meses, mas depois, por motivos de saúde regressou a Portugal e ia lá só de visita, enquanto nós demos continuidade à empresa.

O seu percurso foi sempre evoluindo como empresária…

Foi sempre evoluindo também pela minha força de vontade, sempre fui uma pessoa de meter mãos à obra. O que é preciso fazer, faz-se e não se olha a quem faz. Quando começámos a firma quis sempre, logo do princípio, estar envolvida. Tive muita sorte, porque o meu marido sempre me apoiou, sempre me respeitou… a minha opinião valia tanto como a dele e, felizmente, vamos fazer 30 anos de casados em agosto… (risos) Ele sempre me apoiou em tudo, sempre me deu forças para seguir. Ele gosta de estar mais na retaguarda, tem a área dele, olha pelas obras e é mais operacional.

A Graciete é mais relações públicas, mais a “cara” da empresa…

Sim, sou. Ele é a pessoa que vem com as ideias e diz “nós precisamos de comprar isto, temos que fazer isto”, e eu vou procurar onde é que conseguimos arranjar o dinheiro, como é que fazemos, qual a melhor maneira de fazer… Sempre foi a nossa estratégia e sempre funcionou bem.

Durante o seu percurso, o crescimento foi tal que já teve vários reconhecimentos, conseguiu atingir alguns objetivos, nomeadamente ser presidente da Associação de Construtores.

Esse nunca foi o meu objetivo. Para dizer a verdade nunca tive aspirações para ser presidente, aliás, quando eu entrei para a Associação de Construtores, nem podia ser presidente.

É a primeira mulher presidente?

A primeira mulher e o primeiro sub- empreiteiro. Para ser presidente tinha que ser construtora comercial, construtor residencial ou empreiteiro civil. Mas, entretanto, estive bastantes anos no executivo do Master Builders e eles é que me incentivaram para que fosse presidente, porque eu tinha reservas por causa dos sindicatos. O Master Builders e os sindicatos não são os melhores dos amigos. Perguntei ao meu marido o que achava e ele disse que nós não podíamos levar a nossa vida a ser mandados pelos sindicatos. E apoiou-me. Então tomei a decisão de me candidatar e fui eleita pelo conselho executivo. Isso foi em 2016, porque o presidente demitiu-se e então fui presidente por um ano. Agora fui eleita por mais dois anos.  Renovaram-me o contrato (risos). É uma posição honorária. Não recebo nada, mas gosto de ajudar e depois tenho várias posições em conselhos executivos de várias entidades governamentais ligadas à construção, obviamente porque é o setor que eu conheço. 

Mas como é que consegue conciliar a sua vida profissional, que é tão intensa, e a vida pessoal? 

Quando os meus filhos eram pequenos foi muito complicado, mas também não tinha tanto envolvimento noutras entidades. Era o negócio e a casa e, para mim, sempre foi muito importante estar em casa, especialmente quando os meus filhos já estavam mais crescidos e queria estar em casa quando eles chegavam da escola secundária, porque era quando os problemas podiam ser maiores. Então queria estar em casa para que eles tivessem com quem vir falar, com quem conversar, e isso foi uma das coisas que sempre tentei fazer. Quando eles começaram a tirar a carta de condução e a ficarem mais independentes é que eu também comecei a integrar-me mais noutras associações e a fazer outras coisas, porque realmente nunca tive um plano para isso. Às vezes a vida apresenta-se com oportunidades e nós temos que as saber agarrar.

Tem alguma ligação com a comunidade portuguesa?

Estamos a tentar reviver o clube português de Camberra, faço parte da associação. Mais uma (risos) E temos feito algumas atividades. Ainda agora, no dia 9 [de dezembro], tivemos a festa natalícia do clube onde participou um cantor madeirense, Miro Freitas. Estou bastante integrada na comunidade portuguesa, até porque nós temos bastantes portugueses a trabalhar connosco e há sempre aquela ligação. Além disso, eu gosto de promover as coisas portuguesas. Quando é no ano novo levo sempre uma garrafa de Vinho do Porto para o Conselho Executi vo do Master Builders para celebrarmos e é o Porto Ferreira, porque tem o nosso nome, mas também para eles saberem, porque muitos deles não conhecem o Vinho do Porto como sendo português. Dizem Porto Wine mas não sabem, não associam, que é português. Eu tinha um grande amigo que tinha a maior loja de vinhos e bebidas alcoólicas lá em Camberra e ele não tinha Vinho do Porto e eu dizia-lhe: “Não te podes considerar um bom “Wine Master”, porque não tens Vinho do Porto português… quer dizer, se não tivesses champanhe francês o que é que achavas que era?”. E o homem estava para começar a vender Vinho do Porto nas lojas dele, mas infelizmente faleceu. É das tais coisas, acho que Portugal não é bom a promover os seus produtos internacionalmente, especialmente na Austrália, porque toda a gente acha que é muito longe.

Não existem mais produtos portugueses, além daqueles que referiu?

Esqueci-me de referir um que é o Mateus que eles chamam “Matuss” e que acham que é um vinho espetacular. Mas sabe qual é um que os nossos amigos adoram? É o Casal Garcia. Adoram Casal Garcia, por ser um vinho muito refrescante. No verão nós levamos caixas para a praia e os nossos amigos adoram, mas não é um vinho conhecido para além dum circuito fechado. O que nós tentamos fazer, como empresa com raízes portuguesas, para promover os produtos e cultura portuguesa é, na festa de Natal, os vinhos que servimos são portugueses, fazemos comida portuguesa, entre outras.

A comunidade portuguesa é unida?

Não são unidos, infelizmente não são. Nós temos mais pessoas que vão à nossa festa da empresa do que vão à festa do clube. Para arranjarmos 100 pessoas para ir à festa do clube, é dificílimo.

E a comunidade tem quantos portugueses?

Em Camberra, cerca de mil. Mas é triste, porque muitos dos nossos empregados não vão às festas do clube, não participam, e depois dizem que a Austrália é aborrecida, que não tem nada para fazer. São pessoas que nunca estão satisfeitas com a vida. É pena, porque podiam ser muito mais unidos e podiam promover a cultura portuguesa também, mas não têm tendência a isso. Fazem aqueles grupos, muito fechados. Por exemplo, muitos vêm a Portugal todos os anos, mas não passeiam dentro da Austrália. Portanto não têm oportunidade de conhecer a Austrália e de divulgar Portugal. 

Não há divulgação da cultura portuguesa?

Sim, as pessoas não promovem. E o australiano é muito aberto a culturas diferentes e gostam de saber. Por exemplo, se recebo amigos portugueses lá em casa, normalmente faço uma comida e não estou a ver se é portuguesa ou se é inglesa ou outra qualquer. Mas se convido amigos que são australianos ou de outro país qualquer, tento fazer um prato tipicamente português e servir em louça de barro. Não é que hoje se coma assim normalmente, mas é para eles terem uma noção das nossas tradições. Por exemplo, um amigo nosso que é ministro num estado australiano e é de descendência jugoslava, foi lá a casa jantar e eu pus-lhe os pratos de barro, fiz-lhe a comida à portuguesa e ele ficou encantadíssimo com a comida. Não que eu seja boa cozinheira, mas são comidas diferentes e eles adoram. O ‘Portuguese Chicken’ [frango] toda a gente adora. O que fazem na Austrália é o frango fechado e depois metem-lhe um recheio estranho, feito de pão e de umas ervas, com aroma intenso que não me agrada. 

Que conselhos é que daria aos portugueses que tencionam emigrar para a Austrália?

Que a Austrália deve ser um dos países a considerar, e se conseguirem, que realmente é um país lindíssimo, mas que se integrem na comunidade australiana e que tentem conhecer e que sejam de mente aberta. Não é ir para lá, fecharem-se com os portugueses e esquecerem-se que estão num país estrangeiro. Os conselhos que eu dou aos nossos empregados, quando vão para lá, é que estejam a par das notícias da Austrália, não estejam só a ver as notícias de Portugal. Se a pessoa não está a par, depois também não tem nada que falar com os de lá. Tenham movimento, em várias atividades, participem nas muitas oportunidades que a Austrália dá e conheçam a Austrália. É o que eu posso dizer a qualquer pessoa que vá. E que tenham cuidado com a bebida e com a velocidade, porque lá a polícia não deixa escapar, as regras são para serem cumpridas. Em tudo.

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