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PORTUGAL
2018-06-06
«Português é uma língua com valor universal»

Em entrevista à PORT.COM, o presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua falou sobre a herança e a expansão da língua e da cultura portuguesas no mundo e da sua cada vez maior afirmação universal. Uma língua que em 2050 deverá atingir os 400 milhões de falantes em todo o mundo.

Olhando para o panorama da expansão da cultura portuguesa no mundo, que mudanças se podem assinalar como relevantes nestes últimos anos?

Como sabe estou à frente do Camões há pouco mais de seis meses, mas, na verdade, já houve muita coisa que mudou nos últimos anos. Desde logo as responsabilidades e os números de atividade do instituto. Em 2010, o instituto ficou com a responsabilidade pelo ensino de português no estrangeiro, até então cometida ao Ministério da Educação. Hoje, temos mais de 300 professores no ensino de português no estrangeiro, sobretudo o português de língua de herança e, já em 2012, passámos a integrar a cooperação para o desenvolvimento através da fusão entre o então Instituto Camões e o IPAD. Portanto, a partir dessa altura as nossas funções passaram a ter foco na Cooperação, Cultura e Língua. Estas são três atividades às quais o governo dá a maior importância e estão no centro da política externa de Portugal. Penso que nos últimos anos houve, de facto, grandes mudanças no sentido de dotar o instituto das valências que têm a ver com a cooperação para o desenvolvimento, a internacionalização da cultura e a promoção da língua portuguesa.

Nessa lógica e perspetivando o futuro como vê, na próxima década, a afirmação da língua e da cultura portuguesas no mundo?

Começando pela cultura, houve um passo importante que foi dado há cerca de dois anos, estamos agora no seu segundo ano de implementação, que foi a decisão de criar a chamada ação cultural externa. Basicamente, estamos a falar da sinergia que resulta do que o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Camões, e o Ministério da Cultura fazem pela internacionalização da nossa cultura. Posso-lhe dizer que para este ano temos mais de 1500 ações previstas e estaremos presentes na nossa rede externa de embaixadas e consulados em mais de 80 países. Ou seja, em termos de Cultura há uma projeção completamente diferente.

No que respeita à língua, os números têm crescido também, não só o número de falantes – atualmente já são mais de 260 milhões e as Nações Unidas estimam que em 2050 sejam quase 400 milhões – e continuamos a acompanhar esta dinâmica e este interesse crescente pelo ensino da língua portuguesa como língua estrangeira. Outra questão é a da língua de herança, mas já lá iremos. O ensino do português como língua estrangeira exerce-se através da nossa extensa rede de leitorados, de cátedras, de apoios à docência, ou através da introdução do português como língua no ensino curricular em vários países, o que já acontece, por exemplo, na Europa e na América Latina. E significativo é reconhecer que esta é, de facto, uma tendência que mostra que o português é hoje uma língua com valor universal, policêntrica e na qual muitos países estão interessadíssimos em apostar.

E temos recursos suficientes para sustentar esse previsível interesse e crescimento da língua portuguesa, nomeadamente em termos do ensino?

A verdade é que os recursos são sempre os possíveis. Não podemos esquecer que o país e nós todos temos vivido um período de crise, do qual felizmente estamos a sair, e, portanto, tudo isto significou uma contenção orçamental com a qual tivemos de nos confrontar. Agora isso também nos motivou para otimizarmos os recursos. São desafios que se colocam em tempos de crise e contenção, mas também representam oportunidades e não tenho dúvidas que conseguimos adaptar os recursos disponíveis às necessidades que nos surgiram e continuamos a responder satisfatoriamente à procura que existe em termos do ensino do português. Portanto, jogando com estas duas premissas, ou seja, a otimização dos recursos e necessidade de responder de uma maneira positiva e adequada não vejo que possam existir problemas no futuro.

Acredita que os lusodescendentes estão hoje mais recetivos à aprendizagem do português. O que mudou?

Posso falar pela minha experiência pessoal nestes meses que levo à frente do Camões. Tenho tido oportunidade de participar, com o Secretário de Estado das Comunidades, nalgumas viagens para contatos com a nossa diáspora. Estivemos, entre outros destinos, no Luxemburgo, na Suíça, em França, na Austrália, e tenho constatado que existe um interesse renovado pela aprendizagem do português e também um interesse crescente pelo ensino da nossa língua às crianças, aos jovens para não se perder a ligação que existe, que é uma ligação muito importante, não só ao país como entre as várias gerações. Mais, sabendo nós que algumas, por razões diversas deixaram, um pouco de lado o português. Agora, há também por parte dessas comunidades que estão muito bem integradas nos países onde residem e trabalham uma vontade de proporcionar aos seus descendentes a aprendizagem do português por outras razões que não apenas as da herança. Razões, por exemplo, de mercado de trabalho e acesso a emprego, da utilização do português como língua de ciência, de economia e de negócios, são fatores que vieram a motivar um interesse acrescido nessas comunidades em relação à nossa língua. E já agora deixe-me dizer que temos a funcionar há cerca de um ano uma experiência muito positiva – uma plataforma online de aprendizagem de português que o Camões desenvolveu com a Porto Editora, Português mais Perto – que permite aprender português à distância, com ou sem tutor e que neste momento já tem cerca de 600 alunos inscritos, em mais de 20 países e em cinco continentes. Portanto ou através da rede clássica ou destas novas formas de aprendizagem como as plataformas online existe um interesse crescente ao qual também nós nos estamos a adaptar.

Considera que este ciclo de emigração mais qualificada a que temos assistido nestes últimos anos constitui um recurso de valor acrescentado para a afirmação e promoção da língua portuguesa?

Sem dúvida alguma. É um recurso muito valioso e temos de olhar de uma maneira um pouco diferente para este fenómeno. Hoje começamos a falar de mobilidade e talvez não tanto daquela emigração mais tradicional. Muitos portugueses jovens e qualificados vão para outro país, mas não querem necessariamente ficar o resto da sua vida nesse destino e têm, por outro lado, grandes possibilidades de mobilidade entre vários países - e veja-se dai também o interesse dessa plataforma online de que falei pois pode permitir aos filhos desses portugueses aprenderem a nossa língua nesses destinos onde estão transitoriamente – e, portanto, há uma mais-valia inequívoca nesta mobilidade do século XXI.

Tenho encontrado nas minhas deslocações gerações de portugueses muito motivadas que nos podem ajudar a promover a nossa língua, empresários que nos ajudam a internacionalizar a nossa economia, criando-se assim uma sinergia que resulta de o facto de hoje termos, mais do que emigrantes, portugueses em mobilidade, ajudando a consolidar esta prioridade de promoção da nossa língua através da nossa diáspora.

Neste domínio, mas noutro contexto, qual é atualmente a relação com os Países de Língua Oficial Portuguesa?

É uma relação intensa, como sempre tem sido. Para começar temos uma instância de concertação muito importante que é a CPLP. Aliás, vai-se realizar agora uma cimeira, em meados de julho em Cabo Verde, por força deste país ir assumir a presidência da organização e precisamente uma das ideias que os responsáveis cabo-verdianos querem desenvolver durante o seu mandato é a promoção da língua portuguesa, o que é muito importante para nós.

Isto no plano geral. No plano das prioridades de Portugal, sem dúvida que o relacionamento com os países africanos de língua portuguesa e com Timor-Leste é estratégico e fundamental. Já há muitos anos que temos programas de cooperação para o desenvolvimento e estamos agora a adaptar esses programas aos desafios e à agenda internacional da cooperação para o desenvolvimento, designadamente a Agenda 2030 das Nações Unidas, mas também os programas da União Europeia, da OCDE, entre outros. O que queremos agora são verdadeiras parcerias por força dos planos estratégicos de cooperação aprovados, como os já assinados com S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique e que esperamos assinar em breve com Angola e Timor Leste. Portanto, independentemente de andarmos a procurar novas vias para fazer cooperação para o desenvolvimento, designadamente a cooperação delegada da União Europeia e os modelos de cooperação triangular – onde dois países se juntam para desenvolver cooperação no país terceiro – a cooperação bilateral entre Portugal, os países africanos de língua portuguesa e Timor-Leste continua a ser uma prioridade estratégica e sentimos que o mesmo é avaliado da mesma forma por todos os nossos parceiros.

O Jardim das Nações Unidas foi um dos pontos altos do lançamento das comemorações deste ano do Dia da Língua e da Cultura. Pode haver leituras políticas, nomeadamente quanto à adoção do português pela ONU?

A comemoração do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP nos jardins das Nações Unidas em Nova Iorque foi um ponto alto dos eventos comemorativos deste ano. A presença e intervenção do secretário-geral das Nações Unidas constituíram em si mesmas um nítido valor acrescentado a esse evento. Como sabido, a introdução do português como língua oficial das Nações Unidas é um objetivo partilhado por todos os estados membros da CPLP. Na sua intervenção, o engenheiro António Guterres frisou a importância estratégica, para as Nações Unidas, da diversidade linguística.

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