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2018-07-05
«A lusofonia é o instrumento privilegiado de afirmação dos povos»

Em entrevista à PORT.COM, Vitor Ramalho, secretário-geral da UCCLA passou em revista as questões mais prementes da afirmação do papel da organização num mundo em constante mudança. Consciente que a vontade política dos governos será determinante no futuro, deixa, no entanto, expressa a preocupação de que não se tem avaliado esta situação como seria desejável.

No atual contexto internacional, marcado por volatilidade política, acredita que existe espaço para reforço do papel de instituições como a UCCLA?

Acredito, desde que haja vontade política. Dentro de poucos anos cerca de 70% da humanidade viverá em cidades. Este facto vai determinar de forma crescente que se encontrem respostas novas para questões fundamentais para as cidades, desde as ambientais, alimentares, passando pela educação, não esquecendo as da cultura, cidadania, entre outras.

As cidades terão de ser concebidas numa lógica sustentável, assentes no conceito de cidades inteligentes.

O facto de as relações entre os representantes das cidades garantir maior proximidade, do que as que se estabelecem entre países, é um elemento muito importante para o aprofundamento das relações entre os povos.

No que respeita às cidades dos países de língua oficial portuguesa, o futuro dependerá, como referi, de uma vontade política dos governos de todos os nossos países. Infelizmente não se tem avaliado a situação como desejaria. Neste mundo global, sem barreiras e com livre circulação de pessoas, bens e capitais, o peso da lusofonia é enorme. Ela é o instrumento privilegiado de afirmação dos nossos povos e países no mundo. É possível, necessário e mesmo urgente, percebermos de forma consequente esta evidência.

Não se esqueça que falamos a quarta língua mais falada no mundo e a primeira do atlântico sul.

No seu entender quais são os maiores desafios que se colocam num futuro próximo?

O mundo não está fácil e o dos países e cidades de língua portuguesa também não. Vivemos ainda as consequências do impacto telúrico da implosão do velho mundo bipolar e as ondas de choque estão, ainda aí e visíveis à vista desarmada.

No plano em que a presente entrevista se insere, que tem a ver com os países e cidades de língua oficial portuguesa, a prioridade das prioridades é de natureza política. É que não nos podemos esquecer que a economia, que hoje tudo parece preencher, é um instrumento da política e não um fim em si.

Quero com isto dizer que a prioridade não pode deixar de ser de natureza estratégica e que vá para além de respostas de curto prazo, meramente conjunturais, sem enquadramento em objetivos mais vastos e de longo prazo. Admito que a próxima presidência da CPLP, a partir de 1 de janeiro de 2019, a ser assegurada por Cabo Verde, que parece ter privilegiado a cultura entre os objetivos que marcarão a sua presidência, possa vir a significar um salto qualitativo da CPLP, que é tão necessário ser dado.

Como caraterizaria hoje o espaço da Lusofonia?

A lusofonia é um espaço mundial de cidadãos do mundo originários de países que têm todos por fronteiras o mar e são porta de entrada e de saída de continentes. Desde logo Portugal, o país europeu mais próximo por via marítima das Américas, mas também com cidades que são pontes para o mundo, como é o caso de Macau, ou que ocupam uma posição geoestratégica relevante no sul de África, como Angola e Moçambique, representando Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, verdadeiros porta-aviões no atlântico, com a Guiné a abrir o intercâmbio com os países do Golfo da Guiné. Não esquecendo Timor que, na Ásia, assegura também a perenidade da língua portuguesa, para não falar no que representa para o mundo o Brasil.

Que grandeza e dimensão neste mundo global se soubermos aliar à posição geoestratégica de todos os nossos países à influência das diásporas de todos eles e à especificidade da identidade comum, de povos marcados por culturas humanistas e tolerantes. É por isso necessário sabermos ousar olhar para o futuro de forma descomplexada e consciente da força que temos, se soubermos unir o que deve ser unido, não nos dispersando com questões menores.

Olhando para esta realidade temos hoje a condução da política externa de Portugal, temos a CPLP, temos a UCCLA… como articular com eficácia todos estes vetores?

Como sabe, a CPLP integra países e a UCCLA cidades. Em concreto a UCCLA tem hoje cerca de 45 cidades associadas de todos os países de língua oficial portuguesa e outras entidades empresariais apoiantes. Intervém, portanto, em domínios diferentes da CPLP, esta com objetivos de natureza política e diplomática próprios dos países e a UCCLA, enquanto associação internacional de âmbito intermunicipal, com objetivos que respeitam às relações entre os municípios e, como acima afirmei, numa lógica de maior proximidade. São complementares e é assim que são entendidas. Direi que a UCCLA tem mais a ver com atividades da chamada sociedade civil, podendo dinamizar encontros, seminários, colóquios que respeitem a essa mesma sociedade, para além do lançamento de livros, exposições e debates, o que tem feito, com a projeção conhecida, apesar da carência de meios.

Estas atividades não precludem algumas outras, como as candidaturas apresentadas à UE e ao Instituto Camões em particular, envolvendo cidades ou regiões, particularmente de países de língua oficial portuguesa, como atualmente se desenvolvem em Moçambique (na Ilha de Moçambique) ou na Guiné-Bissau (com a Câmara de Bissau e em associação com a de Oeiras). Como são objetivos que os Estados não preenchem a UCCLA desenvolve-os.

Respondendo à sua pergunta, de forma concreta, dir-lhe-ei que é na lógica de uma crescente articulação que os responsáveis governamentais devem olhar para a CPLP e para a UCCLA.

Angola parece ter entrado numa deriva de política externa que a pode afastar da Lusofonia. É um fator de preocupação?

A população de Angola é hoje maioritariamente jovem. Mais de metade da população tem menos de vinte anos. Quer isto dizer que não têm a memória dos mais velhos.

Se esta é a realidade há, por outro lado, uma outra que resulta do facto dos partidos políticos portugueses terem hoje, a dirigi-los, na generalidade, pessoas mais jovens, o que é natural, pela própria lei da vida. Se esta é a realidade - e é - preocupo-me e tenho manifestado essa preocupação, pela necessidade que há de contribuirmos, de ambos os lados, para salvaguardarmos a memória histórica e o legado que de positivo, os dois lados, Angola e Portugal, deram um ao outro. Portugal beneficiou muitíssimo com esse legado e Angola também e devemos afirmá-lo de forma descomplexada. Claro que houve sombras e domínios condenáveis, mas para olharmos o futuro deveremos, não descurando o que há de condenável, realçar o que há de positivo neste mundo hoje global, onde nos movimentamos e onde falamos a mesma língua, neste caso, a quarta.

Não há espaço para perder tempo, na articulação de esforços para pedagogicamente transmitirmos aos mais jovens esse legado, objetivo que deve correr paralelamente com o aprofundamento das relações económicas, sociais e políticas a todos os níveis, ouvindo, com ouvidos de ouvir quem conhece e é representado no mundo lusófono, com provas dadas.

O facto de Angola ter manifestado recentemente vontade de aderir à francofonia e à Commonwealth decorre de um legítimo direito de soberania e não vejo nisso qualquer preocupação que afete as relações com os países do mundo lusófono. Preocupante será se, porventura, nos esquecermos da importância do valor da memória com os olhos postos no futuro e não contribuindo para o aprofundamento real das nossas relações, sem complexos.

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