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PORTUGAL
2018-08-04
A escassos dois minutos... de nada

Por estes dias, aquando da visita do secretário de Estado das Comunidades ao Centro de Atendimento Consular – um projeto-piloto que abrange a rede consular portuguesa em Espanha e visa proporcionar um atendimento mais rápido e eficaz por via telefónica e correio eletrônico – veio-me à memória um episódio singelo que presenciei num passado recente.

O episódio é, de facto, singelo mas, ao mesmo tempo, trágico no retrato fiel do quotidiano de um país, tantas vezes à beira do tudo, mas que inevitavelmente acaba perdido à beira do nada. E foi assim: um indivíduo entre no tribunal de Almada para pedir o certificado do registo criminal. O segurança, tranquilo, diz-lhe, apesar da porta aberta que só abrem às duas e meia. O indivíduo olha para o relógio e repara que poucos minutos faltavam. Anui, sai, bebe um café e regressa. Entra pela mesma porta, olha para a senhora distraída no balcão onde deveria tratar do seu assunto, mas o mesmo segurança interpela-o novamente e sustenta com o tom da inevitabilidade, «só às duas e meia». O indivíduo olha para o relógio e diz «mas são!». O segurança assume então um ar didático e aponta para um relógio grande, de ponteiros, colocado numa posição elevada sobre uma parede. «Sabe, nós guiamo-nos por aquele relógio e são duas horas e vinte e oito minutos».

E ali ficaram aquelas três personagens, o indivíduo, o segurança e a funcionária do tribunal, suspensos durante 120 segundos, até os ponteiros alinharem a hora de recomeço do período de trabalho da tarde. Aí, a funcionária, despertando da sua letargia, porque assim o «grande relógio da parede», legitimando o seu horário de funcionalismo público o impunha disse, em tom arrastado e sereno, «faz favor?» E assim corre Portugal, a escassos dois minutos de nada ou de tudo.

As análises sucedem-se, mais profundas ou menos profundas, as soluções ensaiam-se, mais profícuos ou, desde logo, destinadas ao fracasso, os Executivos mudam, os políticos sucedem-se e são precisamente estes últimos o manto diáfano que sempre cobre as terras lusas. Os eternos culpados sucedem-se porque os rostos são passageiros e nenhum se perpetua para responder pelos seus pecados governativos. É fácil, a culpa vai-se empurrando para os que se seguem.

Mas será que alguma vez alguém questionou que o verdadeiro problema poderá não estar aí? Qual tem sido a única constante ao longo destas últimas décadas de desgraça? Só vejo uma: os portugueses, todos nós. Parem de culpar quem tem menos culpa.

Posso não questionar o modo, cada um agirá como entender, mas posso sugerir tempo para mudar. Porque não já hoje? Neste mês de agosto tradicionalmente marcado pelo “retorno a casa” de milhares de emigrantes que regressam para o reencontro com familiares e amigos. Porque neste tempo, este é um bom exemplo, o exemplo de todos aqueles que diariamente lutam além-fronteiras na senda do sucesso, de levar mais longe o nome do seu país, com esforço e sacrifício muitas vezes para além do limite do razoável. E este exemplo de sucesso é de reconhecer e enaltecer. Para os nossos emigrantes na vida a sua atitude é estarem sempre a dois minutos… de tudo.

Por cá, não mudem e continuaremos sempre a escassos dois minutos…de nada.  

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