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PORTUGAL
2018-11-01
Um zacatrás por Portugal

Recentemente voltei a pisar todas aquelas lajes “impregnadas” de tradição dos claustros do Colégio Militar. A ocasião repete-se entre tantas outras que encerram o mesmo significado, como o assinalar de mais uns anos passados sobre a saída do meu ou de outro qualquer curso colegial. Mas não momentos que se reduzam na sua carga simbólica, de rever as caras e os caminhos que percorremos juntos durante longos anos da nossa adolescência. São e serão, cada vez mais, momentos de reflexão, de olhar para o futuro, pois a instituição regenera-se sempre que as suas sucessivas gerações colegiais voltam a cruzar as suas portas.

A tónica do discurso aponta fatalmente para uma realidade crucial, mas que cada dia que passa se torna mais áspera neste país. Se o Colégio Militar é hoje uma referência incontornável no nosso país, tal não se reduz à dimensão histórica dos seus mais de 200 anos de existência, à carga simbólica de ter dado quatro Presidentes da República a Portugal, mas sim ao facto de sempre ter sido uma escola de formação de elites, no sentido mais nobre do termo. Elites que não só são um dos suportes fundamentais da instituição como, pela sua transversalidade de atuação no tecido económico, social, cultural, castrense, entre muitos outros domínios, têm contribuído para a construção de um país melhor, de um Portugal com futuro.

Porque este é o problema maior que o nosso país enfrenta, a falta de elites, de referências, de espaço aberto de reflexão, de diálogo, de confronto de ideias, de consolidação de valores, mas também com força para corrigir assimetrias, excessos e legitimações de atuação que hipotecam o presente e o futuro das nossas gerações vindouras.

São estas mesmas elites que o Poder Político, fundamentalmente o alicerçado em conceções doutrinárias que reciclam modelos marxistas e socialistas ou mesmo liberais a cada falhanço que a pródiga história da humanidade nos permite conhecer a avaliar na sua plena dimensão, tem, ao longo destes últimos 30 anos de democracia, perseguido, tentando cercear a sua capacidade de intervenção. Porque a esse Poder Político interessa sobretudo a massa intelectualmente disforme que se tem vindo a cimentar neste país, aculturada, pronta a respostas meramente emotivas, sem tentar descortinar a sua natureza ou as consequências da sua adesão. Quase como se vivêssemos uma lógica de ação política baseada numa pirâmide de Maslow invertida.

Portugal precisa de elites, precisa de mais instituições de ensino que formem elites, precisa de uma sociedade que se reveja nas suas elites, precisa de um Poder Político que entenda as elites como um fator de coesão para o seu exercício político. Num exemplo extremo atenda-se ao que se passa atualmente no Brasil, onde esta espiral incontrolável de vazio humano corre o risco de se tronar irreversível, arrastando consigo todo o tecido económico, social e cultural, num processo de retrocesso civilizacional tão propício ao advento de extremismos que, por muito que nos custe a acreditar, as pessoas acabam por democraticamente legitimar, num ensaio redutor da “escolha do mal menor”.

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