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ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
2019-01-05
«O que eu aprendi desde criança foi a valorizar o que se faz»

Nasceu em Lisboa, mas aos 14 anos foi com os pais para os Estados Unidos. O gosto pela moda trazido de criança levou-a ao Fashion Institute of Technology, uma escola onde se formaram grandes designers de renome. Hoje é Vice-presidente de um grupo empresarial de referência na área da moda e acessórios, a French Connection. De passagem por Lisboa esteve à conversa com a PORT.COM.

Como começou este percurso extraordinário?

Nasci em Lisboa, mas sou filha de emigrantes com descendência africana. O meu pai que era engenheiro foi para Washington trabalhar e naturalmente que eu e a minha mãe também fomos. Tinha na altura 14 anos.

Sempre tive paixão pela moda. A irmã da minha mãe viveu e ainda vive em Paris e eu sempre foi inspirada desde criança pela cultura da moda parisiense.

A cultura chic, refinada, principalmente as mulheres com aquele ar da Coco Chanel que foi uma figura que pela sua história sempre me inspirou. E tantos exemplos. Lembro-me da minha avó materna, mesmo quando ia buscar o pão de manhã, sempre muito arranjada, distinta. Com “um toque”. Portanto desde muito pequenina que sempre convivi com estes ambientes que me fascinavam.

E a chegada a Washington?

Washington foi, para mim, um lugar de introversão em termos de população e mentalidade. Nunca me senti “em casa”. A única cidade que acabou por fazer sentido foi de facto Nova Iorque para onde fui estudar aos 18 anos para a Fashion Institute of Technology, uma escola onde se formaram grandes designers de renome, como o Calvin Klein, Michael Kors, a Carolina Herrera entre tantos outros. E aqui, até porque falo várias línguas, procurei não só o lado da moda, da criatividade, mas também o do negócio onde acabei por me focalizar mais, concretamente na área de fashion buying. Acabei assim por estudar International Trade e Marketing e depois de me licenciar fui logo trabalhar para a companhia do kenneth cole. Ele começou a carreira na confeção de calçado e eu fui para a empresa precisamente na altura em que ele começou a lançar, com muito sucesso, as coleções de roupa para homens e mulheres. Tudo isto foi um grande impulso no lançamento da minha carreira e acabei por estar lá durante 5 anos até que recebi um convite da Louis Vuitton Manhattan – onde a Donna Karen era uma das marcas do portefólio deles – e aceitei onde fui trabalhar na expansão das marcas, não só da Donna Karan mas também da DKNY. Corria o ano de 2006 e acabei por ficar por lá até 2011.

E como foi “o salto” para a French Connection mais ainda sendo uma marca britânica?

Como a cultura é tão pequena no mundo da moda, naquela altura a CEO da empresa nos Estados Unidos e que também estava em Nova Iorque convidou-me porque queria uma pessoa que soubesse a fundo de expansão de marcas e que se movimentasse bem em certas áreas como, por exemplo, perfumes, calçado, entre outras, para expandir a French Connection na América do Norte. O que mais me motivou foi que, quando estava na Donna Karen nós tínhamos 40 setores, contando também com a DKNY. Tínhamos até uma coleção que era específica para o Japão. Toda esta gestão departamental era intensa e eu era uma das pessoas nesta vasta equipa, mas já me sentia preparada para assumir a liderança de um projeto desta envergadura. Recordo que a marca na altura estava mais estabelecida na Europa e os parceiros estavam todos baseados em Londres. Não tínhamos nenhum parceiro baseado em Nova Iorque. E aqui tudo começou. Na altura só a coleção de roupa estava a ser distribuída no país. Primeiro assinei um grande contrato de distribuição para toda a área de calçado e acabou por ser um contrato global para várias partes do mundo. E expandimos do online, das nossas lojas, para outras grandes cadeias de distribuição. A seguir foi com a coleção de malas e depois foram os acessórios. Hoje já vamos com 8 setores como os perfumes - com uma identidade própria que é a Interparfums, onde temos, por exemplo, o reputadíssimo Jimmy Choo. Noutro, o caso dos nossos casacos que estão com a Donna Karan…

E neste percurso de repente Vice-presidente da French Connection?

É verdade. Comecei como diretora e após quatro anos de estar na companhia a então CEO aceitou outro desafio profissional e ficou aqui um espaço diretivo em aberto. Havia já uma vice-presidente responsável pela distribuição de vestuário e pelas nossas lojas próprias, que hoje já são 150 a nível internacional, para além das joint ventures. Isto conferia, logo à partida, uma grande capacidade para expandir outros setores como, por exemplo, o do têxtil para o lar, e tudo isto é agora a minha grande responsabilidade.

E como é ser portuguesa neste universo?

Eu sinto-me muito especial. Na inspiração da moda não há regra, é uma expressão do quotidiano, das viagens, das culturas, da culinária, da música, das artes. Eu sempre tive acesso à europa, cresci com ela dentro de mim, e, apesar de estar aqui desde nova, sempre tive essa capacidade de entender o mundo de uma forma mais global. Tenho foco no mercado americano, mas uma cultura de inspiração mais vasta. E Portugal, pela sua riqueza, foi e é fundamental nesta perspetiva. Tudo isto faz ainda mais sentido para uma companhia que está sedeada em Londres. O que eu aprendi desde criança foi valorizar o que se faz, ter orgulho naquilo que se faz e assinar com o nosso nome tudo o que levamos até ao fim. Orgulho-me de hoje ser reconhecida como competente, criativa, expert, mas sobretudo como uma pessoa de honra no meu universo profissional.

Como vês hoje a comunidade portuguesa nos Estados Unidos?

Algo importante pois as gerações mais novas começam a ter influência, mas curiosamente é uma influência que se move de forma silenciosa, discreta, mas na ribalta. Olho, por exemplo, para o meu universo e começo a ver bloggers, modelos, como a Sara Sampaio ou o Luis Borges a afirmarem-se e afirmarem Portugal. Outro exemplo ilustrativo foi quando apresentamos, pela primeira vez na NY Fashion Week, a nossa coleção Outono/Inverno e tivemos uma modelo portuguesa que por mero acaso estava lá na altura. Fizemos um casting com a Sandra Martins e foi ela que abriu o nosso desfile com um tremendo sucesso. A nossa creator director, que está baseada em Londres, falou comigo pessoalmente a elogiar porque sabe que eu sou portuguesa e aliás fiz questão de falar na nossa cultura durante a iniciativa. E hoje é também uma realidade a afirmação dos portugueses e lusodescendentes na vida política dos Estados Unidos a todos os níveis.

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