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ALEMANHA
2019-01-05
«Vou ser sempre portuguesa»

Maria de Vasconcelos é uma atriz portuguesa que decidiu emigrar para dar uma nova oportunidade à vida profissional, depois de se sentir “claustrofóbica” com as medidas do governo de Pedro Passos Coelho. Hoje vive em Berlim, na Alemanha, mas sabe que será sempre portuguesa independentemente do que esteja escrito no passaporte.

Quando é que decidiste que tinhas de sair de Portugal para continuares a ser atriz?

Saí de Portugal, pela primeira vez, em 2002 para me formar como atriz. Fui primeiro para Inglaterra trabalhar em hotéis e restaurantes com o objetivo de juntar dinheiro para depois ir para Barcelona estudar na escola Estudis de Teatre, com o método de Jacques Lecoq. Queria muito formar-me na área do Teatro Físico e não havia escolas em Portugal. Cheguei a pôr a hipótese de ir para o conservatório, mas na altura disseram-me na secretaria, com ‘ar enjoado’ que “aqui a menina estuda ou trabalha, não há trabalhadores-estudantes”. Percebi que não era sítio para mim, esta atitude burguesa e preconceituosa no mundo das artes parece-me inaceitável.

Como foi a tua primeira experiência enquanto emigrante?

Em Inglaterra trabalhava bastante, mas também me diverti e viajei muito. Foi também a primeira vez que senti na pele o racismo e a xenofobia, na altura fiquei chocada e revoltada, mas depois começas a aprender a lidar com a questão com outra maturidade. Depois, já em Barcelona, a minha vida era bem dura, mas eu sentia-me muito feliz. Estava a realizar um sonho! A escola ocupava-me muito tempo e trabalhava num restaurante quase todos os dias. Não tinha contrato, porque na hotelaria era assim que funcionava e foi uma luta inglória reivindicar direitos básicos como trabalhadora. Não tinha nenhum dia de folga, mas nos momentos livres ia ao teatro, ao cinema, museus, galerias. Foi também um período de grande ativismo político, nomeadamente pelos direitos dos emigrantes, sobretudo dos “sin papieles”. Enfim, foi muito intenso.

Em Berlim iniciaste uma nova trajetória na atuação, mais virada para espetáculos para o público infantil. Porquê essa opção?

Na verdade, a vontade de trabalhar para a infância começou em Portugal. Depois da “Terra dos Imaginadores” em 2008, uma criação minha e da Claudia Andrade em coprodução com o CCB, com música do Fernando Mota e texto e cenário da Joana Patrício, a vontade de continuar a criar espetáculos poéticos e sensíveis acentuou-se. Decidimos emigrar para a Alemanha em 2013, no auge da crise, sentindo-nos claustrofóbicos com as medidas do governo de Passos Coelho, com quem não me identifico minimamente do ponto de vista político. Escolhi Berlim porque não falava alemão e acreditei que aqui seria mais fácil integrar-me. Trouxe comigo os cenários do meu espetáculo para bebés “Os Carneirinhos”, que continuo a apresentar regularmente, e do monologo para adultos “The Monkey”, baseado num texto de Kafka e encenado pelo John Mowat. Não cheguei com ilusões de entrar numa companhia, porque estava consciente da barreira linguística e do facto de, em Berlim, existirem milhares de atores talentosos. Continuei aqui o meu percurso como atriz, criadora e hoje dou também aulas de teatro e de yoga a crianças. Encontrei uma enorme estabilidade a nível profissional, sinto que o meu trabalho é valorizado e não vivo mais no stress do regime profundamente injusto dos recibos verdes. Há que salientar também o facto de haver pouca gente a fazer teatro para bebés em Berlim. No início, foi difícil conquistar público, mas hoje em dia o difícil é encontrar tempo para criar novos espetáculos.

Conheces mais portugueses em Berlim que fazem parte do meio artístico? É uma comunidade unida?

Tenho amigos portugueses em Berlim que são atores, músicos, pintores e ajudamo-nos e apoiamo-nos uns aos outros. De qualquer maneira, não diria que existe uma comunidade artística portuguesa organizada e unida em Berlim. Será que existe nalgum lugar?

Já te sentes mais alemã ou portuguesa?

Eu vou ser sempre portuguesa, mesmo se algum dia tiver de renunciar à nacionalidade.

O futuro passa pela Alemanha ou pelo regresso a Portugal?

Regressar a Portugal não está, para já, nos nossos planos, mas nunca se sabe. Quem sabe se faremos como os alemães quando se reformam e vamos escolher um lugar idílico no sul da Europa para viver a velhice.

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