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FRANÇA
2019-02-01
«Existe muita exploração laboral perpetrada por portugueses»

Luísa Semedo é docente universitária, coordenadora da Santa Casa da Misericórdia de Paris e presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) pelo Círculo da Europa. Nas últimas eleições foi candidata socialista pelo círculo eleitoral da Europa, sendo atualmente a suplente do deputado Paulo Pisco. A Revista PORT.COM falou com a conselheira sobre o papel da CCP junto dos portugueses em França e na Europa.

Quando é que decidiu emigrar? Porquê França?

Eu já estava no curso de Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa, e sendo ateia tinha vontade de fazer investigação sobre a ética e moral fora da religião, e senti que iria ter problemas com esse posicionamento. Para quem estuda Filosofia a Sorbonne era um sonho, pela sua história, pelos filósofos que por cá passaram. E foi a melhor escolha, tive liberdade total. Os professores não apareciam com crucifixos ao pescoço e tive, inclusive, a liberdade de fazer uma tese que mistura não somente filosofia, mas também as ciências cognitivas, a sociologia ou a pedagogia.

Iniciou as funções de dirigente associativa ainda muito jovem. Como foi esse percurso?

Quando acabei o doutoramento, estava cansada do trabalho teórico e solitário da biblioteca, tive necessidade de fazer trabalho de terreno e coletivo. Fundei a associação Philo’Ensemble e fazia ateliers para as crianças sobre temáticas variadas como o racismo, a igualdade de género, o respeito pelos animais, etc. Ao mesmo tempo, quando compreendi que seria muito difícil voltar para Portugal, e já com os meus dois filhos, senti a necessidade do meu país em França. Dirigi-me então para a associação que, na altura, mais me correspondia - a AGRAFr (Associação dos Diplomados Portugueses em França) – e, pouco tempo depois, para a CCPF (Coordenação das Coletividades Portuguesas de França).

Ser presidente destas duas importantes estruturas foi muito enriquecedor. Na CCPF, por exemplo, pude conhecer muitos outros dirigentes associativos, pessoas com o mesmo espírito. Como eu lhes costumo dizer, «batemos com a cabeça em qualquer lado e deu-nos para isto». São pessoas com as quais aprendo ainda tanto.

Que motivos a levaram a candidatar-se ao Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP)?

Em tudo o que pude fazer, a não ser a direção da Philo’Ensemble, nunca me candidatei por minha própria iniciativa a nada. Vieram sempre buscar-me e eu não soube dizer que não. Porque, lá está, «bati com a cabeça» e tenho este sentido meio militar de dever.

Quem me convenceu foi aquele a quem chamo hoje de padrinho Parcidio Peixoto, também dirigente associativo e conselheiro, mas que estava a acabar o mandato, e convenceu-me a liderar uma lista. A nossa lista era a que tinha mais mulheres, todas as pessoas eram ligadas ao mundo associativo, e tive muito orgulho em encabeçar essa lista.

Ter sido eleita presidente do Círculo da Europa é certamente uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos compatriotas. Como vê este reconhecimento?

Foi um trabalho muito intenso durante os últimos anos, muitas noites não dormidas, fins-de-semana preenchidos, vida familiar conturbada, momentos de desgaste físico e mental complicados, mas o balanço é positivo, aprendi muito, sinto-me uma privilegiada. E há tantas pessoas que fazem isto há bem mais anos do que eu, que eu admiro muito, e que não têm qualquer exposição mediática. Através do meu reconhecimento, como diz, eu vejo sobretudo o reconhecimento dessas pessoas que me inspiram.

Quais são as principais propostas que apresentará este ano ao CCP no âmbito de “ajudar” os portugueses no estrangeiro?

Nos últimos meses emitimos vários documentos nesse sentido que foram entregues, tanto ao Governo, como aos grupos parlamentares e que podem ser consultadas no nosso site. Quer seja sobre o Ensino, a Igualdade de Género, a Precariedade e Exclusão, o Regresso a Portugal ou ainda a Juventude.

Para mim, o mais importante é que seja operada uma mudança de mentalidades. Por um lado, considerar de uma vez por todas que os portugueses residentes no estrangeiro são tão portugueses como os que vivem no país. E o recenseamento automático foi um grande passo em frente nesse sentido. Por outro lado, deixar de pensar que os portugueses cá fora são todos portugueses de sucesso, grandes empresários, etc. Existe muita miséria, muita exploração laboral, nomeadamente perpetrada por portugueses contra os seus compatriotas, há portugueses a viver na rua ou em alojamentos de urgência.

Quais são os vossos meios de atuação junto das várias comunidades de portugueses em França?

Todos os conselheiros, em princípio, fazem parte do meio associativo e já faziam um trabalho junto das comunidades, e foi aliás por isso que foram eleitos. Ora, esse trabalho nós não deixámos de fazer por sermos conselheiros. No fundo é, em primeiro lugar, através desse trabalho de terreno que atuamos. 

O CCP é órgão importante, mas pouco conhecido, tanto em Portugal como nas várias comunidades. O que tenciona fazer para o divulgar mais no círculo da Europa?

O CCP é um órgão importantíssimo, com uma potencialidade enorme, mas com meios inexistentes. Os conselheiros não são remunerados, nem têm qualquer fundo para despesas. Portanto, tudo o que fazemos é por devoção e sentido de dever. É sempre complicado estar na ação e ao mesmo tempo comunicar, mas sei que é necessário. Nos últimos meses fizemos um site, uma página Facebook e enviamos todos os nossos documentos para a comunicação social.

Desde que está à frente do CCP tem-se empenhado na luta pela igualdade e contra as ideias de extrema-direita, xenofobia e racismo para com os refugiados e os migrantes. Que ações tem previstas para os próximos meses e quais as dificuldades que tem encontrado no desenvolvimento destas ações?

O meu pai era cabo-verdiano e eu vivi desde sempre com a imagem que me era reenviada pelos outros, por vezes de forma agressiva, de não pertencer ao sítio onde estava e isso continua aqui em França. Sou, portanto, muito sensível a estas questões.

Em França, os portugueses também vieram à procura de melhores condições de vida, fugiram à ditadura, à guerra, à miséria, pelo que temos um dever moral de memória, de saber que os refugiados e migrantes são aquilo que nós fomos, que por vezes ainda somos ou até que podemos vir a ser. Está tudo interligado.

As dificuldades encontradas foram o facto de alguns portugueses acharem que são emigrantes de primeira e terem a memória curta. A grande maioria apoiou o nosso manifesto pelos refugiados, mas tive alguns comentários, felizmente minoritários, que nos acusavam de não nos estarmos a preocupar com os portugueses. Ora, esquecem-se que de um momento para o outro, como no caso do Brexit, que o português pode deixar de ser cidadão da União Europeia e, inclusive, ser alvo de xenofobia como os casos que nos relatam os conselheiros do Reino Unido.

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