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ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
2019-04-05
O português que ajudou a 'erguer' as memórias do World Trade Center

O ano de 2001 fica marcado para sempre na história dos Estados Unidos e também na história da humanidade. O ataque ao World Trade Center com armas nunca usadas, causando um número de mortes e feridos nunca antes imaginados, mudou a forma como o mundo passou a ver a vida e a liberdade.

No meio do caos que se instalou, houve um português que teve um papel fundamental no decorrer e após a tragédia. O arquiteto Luís Mendes foi elementar aquando da remoção dos detritos e também nas várias fases que ergueram, no mesmo local, o monumento de homenagem às quase 3.000 vítimas mortais. “Refletindo a Ausência” é a maior obra que Mendes já teve em mãos, mas espera ainda por uma oportunidade para concretizar o sonho de projetar algo em Portugal.

Quando é que emigrou para os EUA? 

Emigrei em 1974, com 15 anos, para me juntar aos meus pais que já viviam nos EUA depois de viver durante muitos anos com a minha avó em Lisboa. 

Como foi o seu percurso pessoal e profissional nos EUA?

Quando cheguei aos EUA pouco ou nada sabia de inglês e tive dificuldades na escola secundária devido ao facto de não dominar a língua. Depois entrei no Pratt School of Architecture ondei tirei o curso de arquitetura.

Como português, teve dificuldades na sua integração na comunidade americana?

Inicialmente sim por causa da língua, mas depois adaptei-me. Como residia numa zona onde a maioria eram americanos, isso acabou por forçar a adaptação.

Neste momento, sente-se mais português ou americano?

Consigo ser 100% americano e 100% português. Apesar de estar bem inserido na cultura americana, a verdade é que consigo conciliar entre ser americano e português. Não esqueci as minhas origens, das quais tenho imenso orgulho. Normalmente, visito Portugal uma vez por ano, porque os meus pais atualmente residem lá.

Mantém alguma ligação com a comunidade lusófona nos EUA?

Mantenho e tenho imenso orgulho da comunidade luso americana do Estado de Nova Iorque que muito faz para a promoção da imagem de Portugal.

Do que gosta mais em Portugal?

Tudo, tudo, tudo. Gosto dos amigos que tenho, gosto da gastronomia, do mar, do ambiente... sou lisboeta e adoro a luz de Lisboa. Ambiciono voltar a viver em Portugal, não a tempo inteiro, mas com certeza passar longos períodos de tempo no meu país.

Em 2011 disse, numa entrevista, que adorava fazer uma obra em Portugal. Já conseguiu concretizar esse objetivo? Ou está para breve?

Tenho esse sonho, mas infelizmente ainda não se proporcionou ... talvez devido ao estar extremamente ocupado com a minha carreira, mas não descarto essa hipótese.

Hoje é um dos arquitetos responsáveis pelo projeto de construção do Museu Memorial Nacional do 11 de Setembro. Como surgiu esse convite?

Antes de 11 de setembro, a minha carreira incluiu projetos de grande envergadura em Nova Iorque e muitos projetos de emergência na mesma cidade. Entretanto deu-se a tragédia do 9/11 e passei a ficar responsável pelo processo de remoção de escombros, pensando que esse era dos maiores projetos onde tinha participado. Mas, entretanto, surge a proposta de liderar todo o processo de desenho e construção do 9/11 Memorial.  Este foi um trabalho de uma envergadura sem precedentes. O projeto acabou em 2014 e surgiu uma nova oportunidade de liderar um novo programa: a reconstrução de todas as casas destruídas pelo furacão Sandy (2013) em Nova Iorque – mais de cinco mil casas, um projeto de dois bilhões de dólares e um programa com uma logística desafiadora.  Atualmente sou “Deputy Commissioner” do Department of design and construction de Nova Iorque, com responsabilidade no programa de reconstrução urbana na sequência do furacão Sandy.

Como se sente em fazer parte de uma obra com esta dimensão monumental e sentimental?

Extremamente orgulhoso, não só pela parte que simboliza, mas também pela parte de engenharia e construção. O museu tem muito sucesso, é um espaço espetacular que tem entre 10 mil a 12 mil visitantes por dia. São trabalhos como este que marcam uma carreira e uma era.

Já teve oportunidade de observar os nova-iorquinos quando visitam o museu? Acha que sentem a carga emocional do edifício? 

Sem dúvida, porque o impacto do memorial nos nova-iorquinos e nos que viveram e relembram as Torres Gémeas é grande... O museu em si está extremamente bem concebido para poder recriar e relembrar a tragédia que foi o 11 de setembro e para que nunca se esqueça...

Onde estava quando soube do ataque ao World Trade Center?

Ia a caminho do trabalho e, quando estava a chegar as torres caíram. Duas horas depois fui transportado pela polícia para um centro de emergência de logística, para avaliar a situação.

Qual foi a sua primeira reação?

Verdadeiramente surreal, pensava que estava no meio de um filme. O que vi em primeira mão foi algo que não dá sequer para acreditar. No segundo dia, entrei em modo automático de engenharia e logística. Só 30 dias após o ataque, quando encerraram o espaço para fazerem uma missa para familiares das vítimas, é que tive a primeira reação pós o 9/11... foi de choque.

O que fez nos momentos/dias seguintes? 

Trabalhei 22 horas por dia, porque a situação e toda a logística montada em toda a zona do ground zero era de área de guerra. A coordenação de toda essa logística foi desafiadora e verdadeiramente esmagadora. A parte de que mais me orgulhei foi conseguir gerir uma situação com uma dimensão surreal.

Como reagiu quando o indicaram para liderar a equipa de limpeza dos escombros das torres gémeas?

A situação surgiu no primeiro dia que cheguei ao local para coordenar mas, passadas semanas, tínhamos tudo controlado, a trabalhar logisticamente para alcançar o propósito que era a remoção dos escombros. A perícia passou a dominar e tivemos de encarar a realidade que tínhamos pela frente – a limpeza dos escombros.

Conhece algumas histórias dessa altura que envolvam portugueses ou lusodescendentes?

Sei de alguns casos de portugueses e lusodescendentes que padeceram nos ataques, alguns deles que trabalharam para o Port Authority, assim como imensos portugueses que trabalharam para as companhias que estavam a remover os escombros da zona.

Hoje, quase 18 anos depois dos ataques, sente que ainda há muito para fazer/mudar nos EUA?

 

Claro, este ataque mudou radicalmente a maneira de pensar e agir, não só dos nova-iorquinos, mas de todo o mundo. Infelizmente nada voltou a ser igual depois do 9/11, por muitos anos que passem o horror daquele dia jamais será esquecido…

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