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Morreu o fotojornalista que imortalizou a emigração portuguesa em França
Revista PORT.COM • 29-Out-2018
Morreu o fotojornalista que imortalizou a emigração portuguesa em França



Gérald Bloncourt, o fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa em França nos anos 60 e 70, faleceu esta segunda-feira aos 92 anos.

O fotojornalista retratou os bairros de lata (bidonville) portugueses, mas também fez imagens da viagem clandestina para França, assim como imagens de Portugal sob a ditadura e no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

As fotografias de Bloncourt estiveram em exposição tanto em França como em Portugal – no Museu Berardo, em Lisboa – e fazem parte dos arquivos da Cité Nationale de l’Histoire de l’Immigration, em Paris, e no Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe.

Nascido no Haiti, de onde foi expulso no final da década de 1940 por razões políticas, Gérald Bloncourt foi condecorado com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique já por Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República, em 2016.

«Era uma forma de escravatura moderna. Havia lama no inverno, era frio. Eram barracas feitas com tábuas, bocados de chapa. Era uma vida difícil, muito rude. Os homens iam trabalhar para as obras, as mulheres ficavam com as crianças», disse o fotógrafo à Lusa em abril de 2015.

O primeiro "bidonville" que o repórter fotografou foi o de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, mas a abordagem não foi fácil: «Quatro portugueses viram-me e apanharam-me. Pensavam que eu era um polícia. Prenderam-me e meteram-me lá num edifício feito de tábuas. Havia lama por fora, mas lá dentro era asseado e tínhamos de tirar os sapatos», contou lembrando que não foi fácil conseguir a foto.

Os relatos que ouvia nos bairros de lata levaram-no a querer descobrir Portugal e a fotografar as rotas clandestinas dos que tentavam fugir à ditadura, num percurso que ficou conhecido como "O Salto".

«Conheci resistentes contra Salazar e - como eu próprio fui resistente contra a ditadura do meu país - quis lá ir. Fui a Portugal na época de Salazar, fiz toda a rota da emigração, de Lisboa passando pelo Porto, Chaves e aquela região. Fui mesmo detido pela PIDE uma vez. Eu tinha metido rolos para eles na mala e eles encontraram-nos. Mas eu tinha colado nas costas um par de meias com os rolos de fotografias importantes que consegui salvar e que estão hoje publicadas e expostas», contou.

Anos depois, o fotógrafo regressou a Portugal, onde aterrou nas vésperas do 1.º de Maio de 1974, para «tentar fazer algumas fotos» perante «mais de um milhão de pessoas com cravos e um povo em júbilo».

Gérald Bloncourt chegou a oferecer um espólio de cerca de 100 imagens ao Museu da Emigração de Fafe.

Era também pintor e poeta, tendo participado na criação do Centro de Arte Haitiana (1944) e publicado vários livros.

O funeral está previsto para 05 de novembro, a partir das 14:30 locais (menos uma hora em lisboa), no cemitério Père Lachaise, em Paris.


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