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Venezuela: onde o lixo de uns é o almoço de outros
Revista PORT.COM • 28-Mar-2019
Venezuela: onde o lixo de uns é o almoço de outros



O testemunho de uma professora luso-venezuelana.

Fátima Pontes Loreto é professora universitária. Filha de madeirenses, emigrou para a Venezuela em tenra idade, onde viveu uma infância e juventude feliz. Embora reconheça que a sua situação pessoal está ainda (felizmente) distante da restante população venezuelana, Fátima assiste hoje a situações deveras impressionantes e que nunca imaginou acontecerem.

«A Venezuela está muito pobre, há muita fome. Na minha casa, eu coloco o lixo lá fora e em 20 minutos passa gente e vemo-los comer esse lixo. Isto nunca se havia visto na Venezuela. Existiram casos semelhantes há muito tempo atrás, mas eram questões de malandragem, não era fome».

Regularmente acusada de não compreender o que se passa no país onde vive, Fátima contou à agência Lusa que «os meninos passam, batem à minha porta e gritam “Milionária, vocês são ricos, não entendem, por isso é que Maduro vos tem de tirar daqui!”».

Integrante de um órgão consultivo do Estado português - o Conselho das Comunidades Portuguesas na Venezuela, procura ajudar a comunidade lusa residente e assegura que esta é «uma das mais afetadas na Venezuela». «Acabo de ter um caso importante de um português, fora da minha região (...) que estava num hospital como um indigente. O senhor teve um AVC e o filho, aproveitando-se da situação do pai, vendeu todas as suas propriedades, pois ele era um grande construtor civil. O filho vendeu tudo e deixou o pai na rua, a viver numa área de serviço». O senhor acabou por morrer, alguns dias depois de ter sido resgatado, contou Fátima, emocionada.

«Os assaltos são típicos. É já algo natural e, lamentavelmente, pelas seis horas da tarde já temos de estar dentro das casas. À parte de que não há luz, o que faz aumentar a insegurança. (...) Assaltaram também o consulado de Portugal em Caracas e roubaram os telemóveis, dinheiro, tudo. É uma tristeza aquilo que estamos a passar» declarou a luso-venezuelana.

A professora assegura que a classe docente venezuelana tem sido pressionada por Maduro para que o reconheçam publicamente como presidente, ameaçando com cortes nos salários, mas Fátima reforçou à Lusa que não cede a pressões e que apoia Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela.

Com uma comunidade de portugueses e lusodescendentes a rondar os 300 mil residentes, estimam-se que 5 mil pessoas por dia tenham deixado a Venezuela em busca de proteção e melhores condições de vida.


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