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Empresário português na Venezuela reclama uma 'mudança urgente'
Revista PORT.COM • 09-Mai-2019
Empresário português na Venezuela reclama uma 'mudança urgente'



Francisco Félix foi um dos maiores empresários portugueses na Venezuela, quando dava emprego a mais de 200 pessoas. Hoje tem apenas um vigilante a guardar as instalações e vende património para sobreviver. 'A mudança deve ser urgente', diz.

Natural de Vila Franca de Xira, Francisco Félix, com 68 anos, chegou à Venezuela há 34 anos, juntando-se ao irmão mais velho na indústria metalúrgica. Hoje diz, com orgulho, que foi um dos principais empreiteiros a trabalhar para a indústria petrolífera no País, construiu também nas indústrias básicas, fez importantes obras de infraestruturas, gasodutos, reparações de refinarias, construção de centros comerciais em Valência, entre outros.

O empresário explica como a economia venezuelana foi caindo ano para ano, desde 2013.

«Tivemos de ir reduzindo a produção porque as condições tornaram-se bem adversas. Até que parámos totalmente. De mais de 200 trabalhadores, hoje não temos ninguém. Só um vigilante», lamenta.

Hoje vende, gradualmente, património da empresa para viver.

Atribui a responsabilidade aos governos socialistas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, devido à «intervenção» estatal nas empresas. «Fizeram tudo ao contrário. Tudo o que se fez aqui foi destruir».

Lembra uma economia robusta, que exportava, pois, tinha excesso de produção. Empresas de sucesso, como cimenteiras, indústrias de café, de azeite, combustíveis, uma agricultura exportadora, nomeadamente de arroz.

Para o empresário português a razão da crise atual está nessa intervenção estatal na economia.

«Quando tudo foi abaixo, é evidente que mais tarde ou mais cedo, acabando as entradas de dinheiro proveniente do petróleo, como acabaram, com a redução drástica do preço do petróleo, então começaram as dificuldades».

Questionado sobre se não estará a pensar regressar a Portugal, já que a sua empresa já não labora, Francisco diz-se ainda na esperança de que ocorra uma mudança, que «deveria ser a curto prazo, porque as pessoas estão a morrer à fome».

A solução para a Venezuela, diz, é que os políticos se ponham de acordo, «e que façam o que têm de fazer para que se reanime outra vez este país, que comece outra vez a produzir, que se restitua a confiança e que se vão resolvendo gradualmente os problemas».

Fala numa comunidade portuguesa muito afetada com esta crise e que nem as autoridades sabem exatamente o seu número, mas que aponta para umas 600 mil pessoas.

«A comunidade portuguesa aqui tem prestígio, é gente trabalhadora, gente que chegou há muitos anos, muitos já quase não sabem nem falar português, mas ganharam o respeito dos venezuelanos pelo seu trabalho», afirma.

Afirma que muitos desses empresários portugueses «estão com muitas dificuldades», porque foram vítimas de saques, durante os distúrbios. «Às vezes até com a conivência das autoridades, da Polícia e da Guarda Nacional. As pessoas roubavam, depois vinham eles e roubavam também». Fala até de suicídios na região de Valência: «Porque viram os seus bens e tudo o que tinham desaparecer».

Quando é questionado sobre se vê a possibilidade de uma mudança na situação do País com a atual liderança política de Nicolás Maduro, é rápido na resposta: «Não vejo. Se eles são a causa do problema, isto que vivemos é o efeito».

Conta, com um misto de orgulho e mágoa, que as suas filhas, que foram educadas na Universidade Católica da Venezuela, estão uma já em Espanha e outra preparada também para ir para Espanha.

Mágoa também com o facto de ter tido de levar o irmão mais velho, com 81 anos, para Portugal, «porque aqui ele ia morrer».

Lamenta a falta de medicamentos, de assistência, «não havia meios para poder mantê-lo aqui com saúde».


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