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Diplomata não acredita que Bolsonaro estabeleça relações com CPLP
Revista PORT.COM • 29-Jul-2019
Diplomata não acredita que Bolsonaro estabeleça relações com CPLP



O diplomata do Ministério das Relações Exteriores brasileiro Paulo Roberto de Almeida disse, em entrevista à agência Lusa, não acreditar que o Governo de Jair Bolsonaro estabeleça relações com a CPLP, e caso existam serão 'residuais'.

«Eu não creio que venha a haver iniciativas (com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP), ou se elas ocorrerem, se forem apresentadas, serão de efeito residual ou marginal. (...) Como não há nenhuma exposição detalhada de política externa do atual Governo, fica difícil saber quais as intenções deste executivo», afirmou o diplomata.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, afirmou em 19 de julho, que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é «uma prioridade total» para o Brasil e um exemplo internacional para os relacionamentos multilaterais.

«A CPLP é uma prioridade total para o Brasil. É uma das coisas mais especiais que nós temos porque é um fórum que ninguém tem. É um fórum que reúne países de quatro continentes em torno de uma herança cultural comum, que é algo muito profundo para nós», afirmou, em entrevista à Lusa, o ministro Ernesto Araújo.

Porém, Paulo Roberto de Almeida crê que o novo Governo é «incapaz de formular políticas claras, gerais ou setoriais», acrescentando que, no plano das relações exteriores, não conhece nenhuma exposição concreta que esteja publicada em relação a orientações de política. «Dificuldades em se expressar» é uma das críticas apontadas a Ernestro Araújo.

«Todas as entrevistas do chanceler são sempre muito confusas. Ele (Ernesto Araújo) tem um problema claro de desequilíbrio emocional, porque não se consegue expressar. Fica em termos vagos, filosóficos, o que é ridículo. Todas as intervenções que eu vi dele, na Câmara dos Deputados ou no Senado, foi uma junção de conceitos filosóficos sem qualquer sentido para a agenda diplomática concreta", criticou.

Paulo Roberto de Almeida exerceu diversos cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores e em embaixadas e delegações do Brasil no exterior, tendo sido ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington, entre 1999 e 2003, e Assessor Especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre 2003 e 2007.

Em março deste ano, o diplomata, que é também professor universitário, foi demitido da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), cargo que ocupava desde 2016, naquele órgão vinculado ao 'Itamaray', nome como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, passando a ocupar um cargo na divisão de arquivos da mesma pasta.

Apesar de crítico dos Governos do Partido dos Trabalhadores (PT), foram as opiniões negativas tecidas ao Governo de Bolsonaro no seu blogue pessoal, nomeadamente ao chefe da diplomacia brasileira, Ernesto Araújo, que terão levado à sua exoneração, segundo acredita o próprio diplomata.

Ainda acerca da CPLP, Paulo Roberto de Almeida revelou que a divisão brasileira que tratava de assuntos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em Lisboa foi extinta no organograma do Itamaraty, algo que o diplomata considera «estranho».

«Tínhamos uma divisão da CPLP em Lisboa, e hoje quem trata desse assunto é uma secção que trata de Angola e de países da África meridional. Está tudo junto», realçou.

Outra postura do Governo brasileiro criticada pelo ex-embaixador brasileiro foi a mudança de abordagem em relação às relações com a China.

Paulo Roberto de Almeida relembrou que Jair Bolsonaro, enquanto candidato presidencial, passou pela Coreia do Sul e por Taiwan, onde teceu palavras duras em relação à China, afirmando que a potência asiática queria «comprar o Brasil e não comprar do Brasil».

Já Araújo, entre outras críticas, disse, em março, que o Brasil não iria «vender a alma» à China.

«Enquanto candidato a Chanceler, Ernesto Araújo falou de uma China maoista, algo que é absolutamente ridículo porque essa China já não existe há mais de 40 anos. É um país perfeitamente capitalista, ainda que sob um domínio do Estado do partido Comunista. (...) Essa hostilidade manifestada em relação à China foi rapidamente controlada, principalmente por força dos setores responsáveis pelos negócios brasileiros, como indústria e agricultura», afirmou o também professor universitário.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e, em 2018, 26,8% do total das exportações brasileiras foram para o país asiático, mais do dobro das vendas externas para o segundo colocado, os Estados Unidos.

Questionado acerca das futuras relações entre China e Brasil, o diplomata projetou perspetivas de «estabilidade».

«As relações com a China vão ser estabilizadas no mesmo patamar em que elas estiveram nos últimos dez anos, ou seja, uma desigualdade nos fluxos respetivos, uma assimetria evidente, mas uma estabilidade de negócios, que vão continuar a fluir», previu.

Contudo, o ex-embaixador brasileiro, autor do livro "Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty Brasília", diz-se «triste» e «constrangido» por reconhecer que a «diplomacia brasileira se encontra nos estado de letargia, confusão mental e numa ausência de objetivos claros, em lutas contra 'moinhos de vento'», concluiu.


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