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Obra com tradução inédita para português retrata produção cultural dos PALOP
Revista PORT.COM • 06-Out-2019
Obra com tradução inédita para português retrata produção cultural dos PALOP



O livro «África Lusófona – Além da Independência», com tradução inédita para português, lançado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), é um estudo sobre a produção cultural contemporânea da África de língua oficial portuguesa, realizado por um dos maiores especialistas dos Estados Unidos nesta área, o professor Fernando Arenas, da Universidade de Michigan.

O objetivo deste estudo é apresentar, como diz o autor na introdução, “uma visão caleidoscópica” dos cinco países africanos lusófonos (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), moldada por fenómenos associados ao pós-colonialismo e à globalização, por meio de um prisma multidisciplinar que abrange a música popular, o cinema e a literatura.

Segundo o autor, estes países coexistem sob dinâmicas que vários críticos têm descrito como “neocolonialismo”, “recolonização”, “colonialismo interno”, “dependência económica” e “colonialidade do poder”, todos termos com grande impacto e que são refletidos na sua produção cultural.

O autor dá como exemplo um conto da coletânea Sim, Camarada!, de Manuel Rui, publicada durante os primeiros anos da independência de Angola, intitulado O Relógio. O texto trata da história de um relógio, contada para crianças por um comandante inválido do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), à beira-mar, não muito tempo depois da guerra de libertação. Segundo Arenas, a história é uma lição alegórica sobre capitalismo e colonialismo.

“No final feliz, os jovens pioneiros recuperam o relógio lutando contra os soldados zairenses que colaboravam com o movimento rival FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), em Luanda, na época da independência”, escreve.

 “As crianças tornam-se coautores da ‘narração em mudança da própria nação’, na medida em que a história ganha vida com um sentido de esperança e perdão.”

Para Arenas, a riqueza multifacetada da alegoria do relógio suíço, que detalha o modo de produção do capitalismo global, remete ao caráter periférico e também subalterno de Portugal, e do seu império colonial, além de sugerir a condição duplamente subalterna de Angola e de outras antigas colônias portuguesas na África, sobretudo logo após a independência. 

Produção cultural

África Lusófona divide-se em quatro capítulos: “Interconexões africanas, portuguesas e brasileiras”, que traz “um quadro de referência crítica, com coordenadas históricas, geopolíticas, discursivas e culturais para entender o surgimento e o desenvolvimento das nações africanas lusófonas dentro do contexto mais amplo do mundo de língua portuguesa e em relação a Portugal e ao Brasil”, como se lê na apresentação do livro, assinada por Fabiana Carelli e Mário César Lugarinho, “Cesária Évora e a globalização da música cabo-verdiana”, “África lusófona nas telas: depois da utopia e antes do fim da esperança” e “Literatura angolana após a independência e sob a sombra da guerra”.

Para o autor, a música popular, o cinema e a literatura são meios de expressão poderosos, que, no caso de África, continuam a ser espaços-chave de comentário social. “Na era pós-marxista, o cinema continua a proporcionar uma plataforma para investigação das consequências da guerra civil, das vicissitudes da nação e do horizonte de potencial nas vidas captadas na tela, por meio de filmes de Flora Gomes, Licínio Azevedo, Zezé Gamboa e Maria João Ganga”, refere.

Fernando Arenas diz ainda que desde a independência, a literatura em África continua a ser “um bastião de consciência crítica face às persistentes desigualdades socioeconómicas e expectativas políticas não cumpridas”, citando escritores angolanos como Manuel Rui, Pepetela e Ondjaki, que documentam essa situação sob várias formas e com extrema pungência. 

Ainda fala da música cabo-verdiana, que, a partir de Cesária Évora e da nova geração de artistas, atraiu a atenção mundial, trazendo prestígio a essa pequena nação de África, com efeitos positivos na cultura e na economia do país.

“África Lusófona tem como objetivo levar as discussões para além dos relatos heroicos das lutas de libertação e para além das abordagens acríticas e excessivamente cuidadosas em torno das elites políticas de países como Angola e Moçambique, que têm predominado nas ciências humanas, sobretudo no campo dos estudos literários”, destaca Arenas.

 


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