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Carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão
Revista PORT.COM • 20-Mar-2019
Carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão



Ativista, músico e antigo membro dos Pink Floyd, Roger Waters escreveu carta privada a Conan Osíris e uma carta pública a apelar ao boicote do Festival Eurovisão.

A apenas uns meses do Festival Eurovisão, é já impossível não conhecer Conan Osíris, o vencedor da versão portuguesa do concurso. Roger Waters não conhecia e depois de saber que Conan tinha sido o eleito pelo povo luso, decidiu ouvir a sua canção e investigar a sua mensagem.

De tal modo ficou impressionado que lhe escreveu uma carta privada e, mais tarde, uma carta aberta, publicada no seu Facebook no dia 16 de março, dirigida a Conan e aos outros 41 finalistas da Eurovisão.

A PORT.COM disponibiliza para o leitor a carta aberta de Roger Waters traduzida na íntegra.

És tu o tal?

Carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas do Festival Eurovisão da Canção

Há alguns dias atrás, escrevi uma carta privada a jovem talentoso cantor português, Conan Osíris. Ele tinha acabado de ganhar o direito de representar Portugal na final do Festival Eurovisão da Canção, e foi relatado como dizendo que não tinha a certeza se iria a Tel Aviv ou não. Eu ouvi a sua canção e arranjei uma tradução: fala sobre usar o seu telemóvel para fazer perguntas sobre a vida e a morte e o amor. Foi bastante profundo.

Alguns amigos contaram-me que Conan Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que encabeçam a chamada palestiniana para boicotar a Eurovisão numa Tel Aviv sob regime de apartheid. Por isso escrevi-lhe e sugeri-lhe que ali ele teria a oportunidade de falar sobre a vida em vez de morte e também sobre direitos humanos em vez de erros humanos. Como? Ao ficar ombro-a-ombro com os seus irmãos e irmãs oprimidos na Palestina. Podia mostrar solidariedade para com os 189 protestantes desarmados mortos a tiro por snipers israelitas em Gaza no último ano, incluindo pelo menos 35 crianças.

Mas como poderia o nosso irmão Conan reivindicar tudo isto? Ao recusar fazer parte lavagem cultural branca do que um recente comunicado das Nações Unidas chama aos crimes de guerra e possíveis crimes contra a humanidade em Israel, ao abster-se de providenciar a sua arte e assim lavar a sistemática limpeza ética das comunidades indígenas palestinianas de Israel para expandir e manter o seu regime de apartheid.

Conan pode recusar-se a atuar em frente à segregada audiência da final do Festival Eurovisão da Canção no próximo mês de maio, em Tel Aviv.

Na minha carta, expliquei que a Eurovisão pode ser o ponto de viragem e apelei a Conan que se afirmasse. Infelizmente, até agora, não obtive resposta de Conan.

No entanto, tenho notícias de fontes fidedignas que me dizem que o jovem Conan foi pessoalmente abordado e persuadido a ir à final por uma organização chamada Creative Community for Peace (CCfP) (em português, Comunidade Criativa pela Paz).

Ahhhh! E para quem não sabe, a CCfP foi exposta como sendo uma ramificação do governo israelita de extrema direita, apoiado por organizações de propaganda como “Stand With Us” e “The Israel Emergency Fund”. Nada tem a ver com criatividade, comunidade ou paz. É só uma fachada para o apartheid israelita e para a ocupação militar. Vejam este link da Jewish Voice for Peace, uma organização criativa em crescimento que promove verdadeiramente a comunidade e a paz, baseada nos direitos humanos e na justiça para todos

As finais da Eurovisão estão a dois meses de distância. Conan, eu sei o quão “persuasiva” a CCfP e a restante maquinaria de lobby de Israel pode ser. Eles sabem exatamente como empregar um misto de bullying, ameaças e promessas para atingir os seus objetivos. Boa sorte irmão, não estás sozinho. Há 42 finalistas e entre eles encontraremos o tal. O tal que tem amor suficiente no seu coração para se afirmar. Para dizer “eu acredito nos direitos humanos civis e universais e na proteção sob a lei para todos os meus irmãos e irmãs pelo mundo, independentemente da sua etnia, nacionalidade ou religião”. “Eu não irei passar pelo piquete palestiniano para atuar em Tel Aviv em regime de apartheid até que todos os meus irmãos e irmãs, desde o Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo tenham igualdade de direitos sob a lei”. O tal que irá ser lembrado por ficar do lado certo da história, defendendo o amor, a paz verdadeira e a justiça.

Quando eu era novo a minha mãe dizia-me sempre “há sempre a coisa certa a fazer, fá-la”.

Sê o tal, Conan. Faz a coisa certa.

Com amor,

Roger


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