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O teatro nacional visto pelos olhos dos portugueses
Revista PORT.COM • 27-Mar-2019
O teatro nacional visto pelos olhos dos portugueses



No dia em que se celebra o Dia Mundial do Teatro, a PORT.COM pediu depoimentos a três responsáveis de entidades ligadas a esta área, para que dessem a sua perspetiva sobre o poder de intervenção desta arte no presente, as suas expectativas para o futuro e a ligação com o mundo da lusofonia. O resultado é, também, uma leitura sobre o teatro no Portugal atual, pelas vozes de quem o faz, pensa e ensina.

Testemunho de Paula Rita Lourenço, responsável do DEMO (Dispositivo Experimental, Multidisciplinar e Orgânico), um coletivo de artistas que privilegia a investigação e a criação com base no cruzamento entre as artes performativas, visuais e performance-art, em contexto de criação e encenação coletiva:

«Pensar o presente é pensar o ser humano: dignidade, equilíbrio social e emocional. A arte e o teatro incluído nela, podem ter entre muitos o papel da educa

ção/intervenção. Educar para o sensível, através das artes performativas e da sua qualidade cinestésica, é aquilo que nos permite a partilha de uma experiência transformadora para os espetadores. A combinação de palavras, movimento, música, luz, cor, matéria. Ou apenas o usufruto, a contemplação de um exercício estético, visual, sonoro. Podemos transformar não só através da denúncia, mas também através do sentir.

O nosso trabalho artístico está em constante mutação. A pesquisa, criação e educação são elementos fundamentais que nos guiam entre a descentralização e a internacionalização. O mundo, a possibilidade de partilha, fascina-nos. Já passámos por Cabo Verde e Macau com projetos que permitiram diferentes abordagens artísticas à língua portuguesa e se mostraram instigadores da identidade cultural local. Em Mindelo, o projeto Sabor de Terra resultou na criação de um espetáculo com comunidade, a partir de aspetos do seu património identitário. Em Macau, para o Festival Fringe, preparámos a performance Uwaga! que propõe uma comunicação entre os espectadores e a cidade através da materialização de palavras. No Rota das Letras - Festival Literário de Macau apresentámos Hydra & Orpheu, o primeiro espetáculo da nossa trilogia dedicada aos movimentos artísticos e literários entre o simbolismo e o futurismo.

O futuro? Esperamos continuar a trilhar um caminho, cruzando o local e as suas questões identitárias com a internacionalização e a liberdade da criação autoral.»

 

Testemunho de Carlos J. Pessoa Amadora, diretor artístico do Teatro da Garagem, uma companhia que está a celebrar 30 anos de atividade regular e dedica o seu trabalho artístico à pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para teatro e de novas formas cénicas que a acompanham:

«É um erro subestimar o valor da experiência humana; esta corresponde a uma multitude de relações, mais ou menos evidentes. Talvez existamos, cada um de nós, numa relação de afinidades, de encontros e desencontros. Estamos a falar de Teatro quando estamos a falar das pessoas? A perspetiva do Teatro da Garagem é de fé no Teatro e nos seus desafios de reinvenção fraterna. A arte teatral, como a entendemos, projeta-se no esforço coletivo, na partilha de impressões sensíveis e na palavra como veículo dessa teia incandescente.

A língua portuguesa é um dos motores do nosso contrato de serviço público. Fazemos um Teatro de portas abertas, com o que vem, com o que se manifesta. O Teatro da Garagem participa num acontecer teatral que envolve cada vez mais pessoas muito diferentes entre si; o espírito do tempo, estimula-nos a procurar nesses compromissos, uma prática teatral renovada. Se Cesário dizia os versos “levando à via férrea os que se vão felizes... Madrid, Paris, Berlim, S.Petersburgo, o Mundo”, talvez seja oportuno pensar que o sentido da viagem se inverteu; que do Mundo global encontramos o lugar singular de uma rede inesperada.

Dos projetos mais recentes da Companhia, onde se evidencia a troca entre artistas de língua portuguesa destacamos dois: Radiodrama, em parceria com a RDP Africa, que visa a divulgação da dramaturgia contemporânea de língua portuguesa e a colaboração com o Teatro Garagem de São Paulo, Brasil, num projeto em torno da obra de Ernesto de Melo e Castro.»

 

Testemunho de Miguel Seabra, diretor artístico do Teatro Meridional, uma companhia portuguesa premiada a nível nacional e internacional, vocacionada para a itinerância, que procura nas suas montagens um estilo marcado pelo protagonismo do trabalho de interpretação do ator, fazendo da construção de cada objeto cénico uma aposta de pesquisa e experimentação:

«O Teatro é um dos últimos locais onde o Homem se pode encontrar com o Homem diretamente e sem ser alvo de tecnologias e meios digitais de comunicação. Tem a força da emoção, a força do contacto direto, da perceção física e sensorial do outro e, portanto, é uma das principais vias de comunicação artística, talvez a mais completa.

Uma das vias de trabalho do Teatro Meridional, na área criativa, é precisamente dedicado ao mundo da lusofonia e à palavra poética e narrativa em português. Já estivemos em Timor-Leste, em Angola, várias vezes em Cabo Verde, no Brasil e já trabalhámos com cerca de 120 atores, muitos dos quais dos países lusófonos. Portanto, uma das nossas prioridades é a palavra em português e a ação através da nossa língua mãe.

Todas as nossas experiências nesse sentido têm sido sempre muito gratificantes. É uma grande riqueza ter o português como uma língua comum, riqueza essa que aproxima as pessoas de uma maneira muito singular.

Tal como um espetáculo de teatro, olhamos para o futuro, mas temos de viver o presente, porque o espetáculo de ontem já passou, o de amanhã ainda não aconteceu e é o de hoje que tem importância. O teatro é a arte do momento e, nesta via de vida que escolhemos, temos de estar muito conscientes do grande desafio que constitui. O futuro é imenso, tem de haver necessariamente uma adaptação à velocidade mental das pessoas hoje em dia, uma adaptação à evolução às várias linguagens, estéticas e literárias, mas a razão pela qual o público vai ao teatro é só uma: para ouvir histórias. E enquanto houver pessoas disponíveis e com sensibilidade para ouvir histórias, o teatro tem sempre futuro. Começou na pré-história e há de acabar com o último Homem na terra a fazer um monólogo para o universo».


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