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Entrevista a Roberto Leal: “Sou um apaixonado pela ligação de Portugal com as comunidades”
Luís Carlos Soares • 24-Dez-2016
Entrevista a Roberto Leal: “Sou um apaixonado pela ligação de Portugal com as comunidades”



No momento em que assinala 45 anos de carreira, Roberto Leal conta histórias da sua relação com os portugueses por todo o mundo, do Brasil aos Estados Unidos, da Argentina até à tão distante Austrália. A história de sucesso que começou com “Arrebita” continua agora com “Arrebenta a Festa”.

Roberto Leal é, indubitavelmente, um dos portugueses mais acarinhados por toda a lusofonia. Só no Brasil, a sua carreira soma números tão impressionantes como 25 milhões de discos vendidos, 12 Globos de Ouro da Rede Globo, 35 discos de ouros, cinco de platina e dois de diamante. O cantor transmontano esteve à conversa com a Revista PORT.COM, em Lisboa.

 

Depois de, em 2014, ter lançado um disco em que homenageava o Brasil [“Obrigado Brasil!”], este ano lançou “Arrebenta a Festa”, um disco novamente mais voltado para a cultura portuguesa. Porquê esta decisão?

Porque há coisas necessárias. Este “Arrebenta a Festa” marca os 45 anos de carreira, com continuidade. O primeiro foi o “Arrebita”, agora o “Arrebenta a Festa”, nada se perdeu no meio do caminho. Ao longo da minha vida fiz sempre discos unindo o Brasil a Portugal, como “De Jorge Amado a Pessoa” [2004], “Quem Somos Nós” [1990] e o primeiro “Obrigado Brasil” [1980]. Sempre houve esta necessidade de aproximação no caminho entre os dois povos.

 

O que é que, na sua essência, distingue este disco do anterior?

O “Arrebenta a Festa” é um disco muito importante porque tem, no fundo, uma pitadinha de todos os trabalhos que eu fiz. Quando eu digo que “já cantei a cana verde, fandango e o corridinho, o vira, o fado e o malhão, cantei a chula do Minho”, é o retrato da verdade, já cantei tudo isso. “Já brindei com vinho verde e com Vinho da Madeira. Não perco um copo de tinto, um Porto e bagaceira”. Todas essas coisas já aconteceram. É um disco que tem 20 músicas, dez para “arrebentar” e ainda outras dez grandes músicas, como “O pastor”, “Canção do mar” e “Verde vinho”.

 

Para além dessas referências a símbolos da cultura portuguesa, que outros elementos transportam “portugalidade” ao longo do disco?

Este é um disco muito tuga, muito lusitano. Não há praticamente nenhum trabalho meu que não tenha gaita-de-foles, cavaquinho, braguesa, adufes, entre outros. O “Arrebenta a Festa” também conta com um elemento que eu praticamente levei para o Brasil, que é a concertina. Eu emocionava-me, morrendo de emoção, cada vez que ficava nos camarins de festivais de folclore e, de repente, começavam a tocar dez ou doze concertinas ao mesmo tempo. Neste disco tentei colocar toda essa emoção, tanto que eu levei um ano a gravá-lo, porque não ficava como eu desejava. Chamava um concertinista e ele não rasgava como eu queria. Até que encontrei o maior estudioso no Brasil no que toca ao folclore, que tem todas as concertinas, cada uma num tom, o que me permitiu emprega-las todas. Este disco marca essa diferença.

 

Ao longo deste ano, nos concertos dados, como têm sido as reações do público às novas canções?

Fantásticas. O meu filho Rodrigo disse-me uma coisa, sobre o “Arrebenta a Festa”, que me alegrou muito. Disse que, nos últimos 20 anos, foi a melhor música que fiz. As pessoas que se aproximam de mim em Lisboa, no Alentejo, no Algarve, em Trás-os-Montes, dizem “Arrebenta a Festa, Roberto”. É muito bom quando se sente que uma música deixa esse legado. O “Arrebita”, quando comecei, também foi assim. É uma música muito forte, mas as pessoas também se surpreendem quando canto “O pastor”, que tem uma entrada que parece o cantar de alvorada. Quando entra a gaita-de-foles, parece que leva um Portugal inteiro, traz todo um passado mouro, árabe e celta. Este é um disco onde fomos buscar a nossa herança, a herança musical de Portugal.

 

De onde surgiu a ideia de convidar Quim Barreiros para colaborar consigo neste novo disco?

Isso foi quando o disco já estava praticamente terminado e eu disse, “puxa, para “arrebentar essa festa” tenho que chamar a pessoa que mais arrebenta a festa em Portugal”. O Quim Barreiros é um homem muito inteligente, muito culto e um ser humano fantástico. Quando o procurei, ele disse: “Roberto, esse disco está fantástico e o primeiro videoclip só pode ser gravado num lugar, no Santoinho, no Minho”. Ele tratou de combinar tudo com o dono do espaço e participou com muito prazer. Adora música. O disco “Arrebenta a Festa” já é um grande sucesso, porque é muito importante quando você tem uma música que dispara para todo o lugar. Tanto que a tenho cantado duas vezes nos meus concertos…

 

A incalculável popularidade no Brasil

 

O Roberto Leal é frequentemente referido como o maior embaixador da relação de proximidade entre Portugal e o Brasil. Como se sente nesse papel?

Este ano fui condecorado no Brasil como cidadão do Rio de Janeiro. Nesse dia houve gente que não coube dentro do edifício da Câmara, mal deu para entrar. Esses acontecimentos marcam, são coisas que não se programam. Há aspetos na minha carreira que foram muito maiores do que eu pensava. O tempo se encarregará de justificar esta popularidade, mas, no fundo, eu sou um apaixonado pela ligação de Portugal com as comunidades, o mundo lusófono e os PALOP’s. Creio que os primeiros parceiros de Portugal são esses. Eu acho que primeiro que você tem que estar bem com a sua família e depois bem com o seu vizinho, entende?

 

A seu ver, o que o torna tão popular no Brasil? Traçou alguma estratégia, ao longo destes 45 anos, para que assim sucedesse?

Isto não é marketing, não está na nossa mão. Quem programou sabe mais do que a gente, é de um mundo maior. Ninguém preparou o Roberto Leal para representar Portugal no Brasil, ser o embaixador disto ou daquilo. Na altura dos 500 anos do Achamento do Brasil, o jornal Folha de São Paulo fez uma grande sondagem junto dos brasileiros, para averiguar qual é a pessoa em quem pensam quando se fala em Portugal. O Roberto Leal ganhou. O próprio D. Duarte, o representante em Portugal da monarquia, durante a qual, como sabemos, foram feitos os Descobrimentos, já contribuiu para que me atribuíssem distinções. Isto para mim, aquele menino que foi para o Brasil, nascido em Vale da Porca, em Trás-os-Montes, é muito importante. Eu perguntei ao D. Duarte no que se haviam baseado para me darem esses prémios, e ele respondeu que o meu primeiro disco foi o “Arrebita”, este é o “Arrebenta”, então que considera muito importante que eu nunca tenha perdido o leme, a identidade.

 

Desejo de nova visita à Argentina e Austrália

 

Para além de Portugal e do Brasil, em que países se sente mais acarinhado, particularmente pelas comunidades portuguesas?

Para ser politicamente correto, eu diria que são todos. Mas há alguns países especiais, tenho que o reconhecer. O Canadá, a França e os Estados Unidos. Nesses países vão sempre autocarros cheios provenientes de vários sítios para me ver.

 

No universo da diáspora portuguesa, há algum local em particular onde gostasse de levar as canções do novo disco?

Eu cantei em Melbourne e Sydney, há 20 anos, e nunca mais fui à Austrália. Foi um país que me marcou porque vi as pessoas chorarem muito nos meus shows, em pavilhões completamente cheios. Lembro-me que a negociação demorou quase um ano. Nós fomos 15 pessoas e, hoje em dia, não é fácil comportar uma viagem com tanta gente. Nós ficámos lá 14 dias, para que as viagens tivessem um preço mais baixo.

 

Atuou, praticamente, no outro lado do mundo…

Exato. Outro país que me marcou foi a Argentina, onde também estive há uns 20 anos e tive um momento ímpar na minha carreira. Cantei três horas num hotel Hilton, em Buenos Aires, para 900 executivos, que não saíram da sala e depois quase todos ficaram para autógrafos. Depois disso, lembro-me que fiquei a noite inteira a tomar chá, para baixar a minha adrenalina, porque eu não conseguia adormecer. Eu perguntei à Dr.ª Manuela Aguiar, na altura secretária de Estado das Comunidades, o porquê dessa reação das pessoas. Ela respondeu que quem vai para a Argentina, nunca mais volta. Estavam lá filhos e netos de portugueses, pessoas que nunca vieram a Portugal, mas com uma consciência migratória muito grande, que faz com que extraiam todo o portuguesismo que possam de quem os visita. Então é lógico que eu tenha ficado vazio, porque eles ficaram com tudo o que eu deixei lá. Só três dias após esse show, já em São Paulo, é que eu voltei à normalidade. Nem conseguia dormir, estava a ficar louco. Eu só via aquelas pessoas a falar castelhano e com a lágrima nos olhos.

 

Falou na Dr.ª Manuela Aguiar. Costuma manter uma relação de proximidade com os secretários de Estado das Comunidades?

Gosto muito dela, foi das pessoas que tiveram mais consciência da importância do posto que ocupava. Bem, o José Lello também teve, assim como o José Cesário, com quem estive no Brasil. Também já conheci o atual, José Luís Carneiro, que noto que está cheio de vontade para fazer coisas. Acho que também está a fazer um bom trabalho.

 

A indústria da música, a língua e as associações

 

Considera que a música é um elemento importante para a preservação da língua portuguesa entre os lusodescendentes?

Sem dúvida. Você não ama nada que não admire. Como a minha carreira já dura há 45 anos, presta uma grande mensagem. Nos primeiros anos em que eu ia para os Estados Unidos, os pais levavam os filhos. Agora os filhos levam os pais. Há muitos anos estive em Ludlow, onde fizemos um show para 30 mil pessoas e eu disse no palco, emocionado: “eu sinto o cheiro da sardinha assada, das bifanas, mas também do MacDonald’s”. As gerações todas estavam ali. Isso é muito bom porque, de uma certa forma, os pais quando vinham a Portugal traziam as crianças, que, na maioria das vezes, foram criando os seus laços com o país. Eu costumo terminar os meus shows em França, no Canadá ou nos Estados Unidos, dizendo para que aprendam o inglês, se possível o francês, mas que nunca esqueçam o nosso português. A música, a dança, o futebol, com o Cristiano Ronaldo, tudo isso é muito importante para que as pessoas tenham orgulho na sua terra.

 

Acredita que a indústria da música portuguesa seria a mesma se não existissem os emigrantes?

Não, seria mais fraca. Acho que há uma injustiça muito grande para com a emigração, porque se você pensar bem, a rota da emigração é a rota da nossa gastronomia, cultura, arquitetura, porque eles vão e levam. A calçada da praia de Copacabana, por exemplo, é toda calçada portuguesa. O bolinho de bacalhau já chegou à periferia brasileira, quando o bacalhau não é típico do país. Foram os portugueses que levaram para lá. A emigração desempenha um papel da maior importância, a todos os níveis. As associações portuguesas espalhadas pelo mundo também o fazem.

 

Aprecia o trabalho desenvolvido pelas associações de portugueses pelo mundo?

Com certeza. É lá que as meninas vestem os trajes típicos do Minho, de Trás-os-Montes ou do Ribatejo, e se sentem portuguesas. Muitas vezes, essas associações não recebem o mérito, por parte das autoridades portuguesas, que deveriam ter. Claro que há um ministério ligado à emigração, que presta serviços a estes portugueses pelo mundo, mas sem as associações não seria a mesma coisa. Foi ali que o brasileiro entrou e experimentou um bolinho de bacalhau e um copo de vinho português, foi ali que frequentou a festa da sardinha assada ou a festa da cereja. Estou plenamente convicto que as associações prestam um serviço da maior grandeza.


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