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Japoneses querem restaurar órgão da Sé de Évora «importante» para Japão
Revista PORT.COM • 10-Set-2019
Japoneses querem restaurar órgão da Sé de Évora «importante» para Japão



Com ligação histórica ao Japão e considerado uma raridade, o órgão de tubos renascentista da Sé de Évora «chama» hoje à catedral muitos turistas deste país e até uma associação japonesa quer apoiar o seu restauro.

«Gostaria de tentar ajudar. Com quanto» ou «o tempo que vai demorar e aquilo que conseguirei fazer ainda não posso dizer neste momento, mas vou fazer o meu melhor», afiança à agência Lusa o presidente da Associação Kamakura Portugal, Genjiro Ito.

Uma delegação da associação esteve esta semana na Sé da cidade alentejana, onde se reuniu com responsáveis da Arquidiocese de Évora e da Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCAlen), e ficou evidente a importância do órgão, do século XVI.

«Há 400 anos», evoca Genjiro Ito, a Missão Tensho, a primeira embaixada japonesa enviada à Europa, com destino a Roma, para se apresentar ao Papa, «veio aqui», a Évora e à catedral, e «um deles tocou neste piano», no órgão renascentista, que se tornou «muito importante para a história japonesa».

O instrumento é tão especial que a delegação até trouxe a sua própria pianista e organista, a japonesa Mizuki Watanabe, de 15 anos. Após um breve ensaio, com o apoio do organista da Sé Rafael Reis, a jovem deu um pequeno recital e mostrou os seus dotes, «inundando» de música a catedral.

O órgão de tubos foi o instrumento «mais antigo» que já tocou e despertava-lhe interesse, pois, conhecia a história da Missão Tensho pelos «livros da escola» e através de «filmes e documentários».

Ana Maria Borges, da DRCAlen, enfatiza que a Missão Tensho «foi importantíssima» para o conhecimento das relações entre Portugal e o Japão e respetivas relações diplomáticas e culturais.

«São quatro príncipes, muito novinhos, que vêm como embaixadores, acompanhados por perceptoras e padres jesuítas portugueses», conta, assinalando que a viagem durou «dois anos e meio» e, quando chegam a Portugal, «o cardeal D. Henrique já tinha morrido e, por isso, o rei já não estava em Lisboa, estava em Madrid», ou seja, era Filipe II de Espanha e I de Portugal.

Em vez de seguirem diretamente para Madrid e daí para Roma, o então arcebispo de Évora, Teotónio de Bragança, «consegue» que vão «primeiro a Évora», onde ficam «cerca de uma semana», e a Vila Viçosa, daí resultando «uma descrição fascinante do que viram, que para eles era tudo diferente», acrescenta.

«Uma das coisas que acharam espantoso foi o órgão, porque era enorme, com um som fabuloso, onde eles tocavam numa tecla e ouviam tocar e mexiam-se várias teclas. Eles fazem esta descrição pormenorizada, como fazem de outras coisas», relata.

Daí o fascínio dos japoneses por este órgão. Apesar de já ter tido «grandes modificações no século XVIII» e «um grande restauro nos anos 60» do século passado, «os tubos, grande parte do material no interior e a fachada em madeira de carvalho são originais», refere o organista Rafael Reis.

Nos 22 anos em que tem estado ao serviço na Sé, Rafael tem assistido «sistematicamente» à chegada «de excursões principalmente do Japão» com turistas que «querem vir a Évora ouvir este órgão particularmente».

«Vêm e pedem que toque para eles um pequeno recital ou um bocadinho, 10 ou 15 minutos», diz, referindo que também tem acolhido estações de televisão japonesas que pretendem «filmar o instrumento», tal como Ana Maria Borges destaca que mesmo «as missões de teor económico, com empresários» do Japão têm a Sé no seu roteiro de visita.

O imponente instrumento, com a sua grande estrutura de madeira, de onde saem inúmeros tubos, cujas notas ecoam pela catedral quando está a ser tocado, é o «mais antigo de Portugal e único do género» no país, explica à agência Lusa o cónego Eduardo Pereira da Silva, da arquidiocese, frisando Rafael Reis que o órgão «é um dos mais importantes da Península Ibérica e da Europa».

Os turistas japoneses «pedem muitas vezes um concertozinho, só para ouvir o órgão» e ficam «todos contentes por esta relação história entre o Japão e Portugal», diz o cónego. Mas agora é preciso uma revisão, o que é também atestado por Rafael Reis, que indica que há «alguns tubos inclinados» no topo, com «risco de queda», e, em termos de som, outros que não funcionam.

Na capela-mor da Sé, a arquidiocese está a restaurar outro órgão, construído por Oldovino, no século XVIII, e queria «fazer este a seguir, só que é um volume financeiro» a rondar «os 90 mil euros», não existindo essa capacidade financeira «de um momento para o outro», realça o cónego, considerando bem-vindo o interesse da Associação Kamakura Portugal: «É uma boa notícia para nós saber que há interesse em ajudar-nos».

O mesmo afirma Ana Maria Borges, lembrando o vasto património do Alentejo: «Se tivermos alguém que nos apoie no restauro do órgão, para nós é importantíssimo».

Pode «não ser assim tão fácil» conseguir o dinheiro para o restauro do órgão renascentista, mas Genjiro Ito diz que «é possível» e compromete-se. Quando regressar ao Japão vai «procurar encontrar os fundos» e «as pessoas que possam ajudar este projeto».


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