ÚLTIMAS
NOTÍCIAS

BBC rende-se à alheira
Revista PORT.COM • 24-Set-2017
BBC rende-se à alheira



Ainda recentemente a britânica BBC Travel dedicava um extenso artigo aos Peixinhos da Horta portugueses. Desta vez, foi a jornalista Theodora Sutcliffe que visitou o nosso país para se encantar com a alheira.

Em agosto, uma reportagem publicada pela prestigiada BBC Travel correu o mundo. O jornalista britânico David Farley visitou Portugal no rasto do nascimento do Tempura, um clássico da cozinha nipónica inspirado nos nossos Peixinhos da Horta. Já na altura, Farley assumia no artigo que a cozinha portuguesa pode vir a tornar-se a mais influente à escala global.

Agora é a jornalista Theodora Sutcliffe que enaltece a alheira. No artigo publicado, já este mês de setembro, intitulado "Portugal´s sneaky sausage that saved jews", Sutcliffe visita o nosso país e tece o rasto da Alheira até ao século XV, mais concretamente a 1496, quando os judeus portugueses se viram forçados à conversão ao cristianismo. Contrariar a ordem, acarretava a expulsão do país. A comunidade judaica viu-se atingida, perseguida, eliminada.

“Disfarçando-se de Cristãos convertidos [Cristãos-novos], os judeus portugueses fizeram grandes esforços para esconder as suas práticas religiosas. Nas montanhas remotas de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal, uma comunidade judaica criou um enchido, a Alheira”, sublinha Theodora na sua peça. 

A comunidade vivia em Mirandela, onde mandava a tradição que os enchidos de porco ficassem em cura durante o inverno, pendendo das vigas dos tetos. A tradição da dieta judaica proíbe o consumo de carne de porco. A não existência desta num lar poderia alertar a Inquisição. 

"Para se refugiarem da Inquisição, os judeus de Mirandela desenvolveram um enchido com pão, frango e condimentos", explicou à articulista inglesa, Paolo Scheffer, especialista na história judaica, a residir em Lisboa. Desta forma, a jornalista, alerta no seu artigo que “numa época em que os judeus foram queimados na Praça do Rossio, a Alheira provavelmente salvou centenas, talvez milhares, de almas”.

Também de acordo com Scheffer "para os judeus Asquenazes, a Alheira de Mirandela é semelhante ao Kishke, um enchido kosher [de acordo com a prática alimentar judaica] recheado de gordura, farinha e elementos que conferem sabor, que muitas vezes é servido no ensopado de feijão sabático judaico, lentamente cozinhado”.

Em Lisboa, Theodora Sutcliffe visitou um dos bastiões dos produtos portugueses, a Manteigaria Silva, a operar desde 1928. 

“Os presuntos curados pendem do teto, os vinhos do Porto e da Madeira competem pelo espaço na prateleira e pedaços de queijo dourado aguardam a lâmina. Ao lado do lombo (carne de porco curada) e chouriço encontra-se um enchido tão bem português que uma votação pública de 2011 o declarou uma das sete maravilhas gastronómicas da nação: a Alheira de Mirandela”, destacou a repórter.

Com o passar dos séculos, a alheira viajou muito para além das montanhas do nordeste português, deixou de ser um alimento Kosher, para incorporar, também, a carne e gordura de porco, também carne de caça, azeite e banha, alho, colorau doce, sal. Em Portugal “é um alimento básico de conforto. Não a encontra em restaurantes excelentes, mas é omnipresente nos supermercados e aparece ao lado de bife e ovos em cafés operários ou cantinhos de bairro”.

No Zé dos Cornos, em Lisboa, um tasco de azulejos brancos próximo ao Castelo de São Jorge, a repórter britânica viu-lhe ser servida a Alheira de Mirandela. 

“Veio brilhante, grelhada e em forma de ferradura, ao lado de um ovo frito, batatas fritas e arroz branco. No enchido fumegante vi pedaços suculentos de carne misturados e amassados com pedaços de pão”.

“Hoje, embora as cidades de todo o país comecem a redescobrir a sua história judaica, a alheira é mais um ingrediente da gastronomia portuguesa do que um símbolo das pessoas que a criaram”, concluiu.


Etiquetas
Partilhar

OPINIÃO
Os efeitos do medo do coronavírus...
Daniel Bastos
Historiador
Novo Coronavírus provoca epidemia com desfecho imprevisível
Alfredo Martins
Internista e Coordenador do NEDResp
InPortugal 2020 Paris quer desenvolver nova rede de embaixadores
Ricardo Simões
Diretor do InPortugal
DISCURSO DIRETO
A Fundação ISS e o apoio na África Lusófona
Eulalia Devesa, Diretora da Fundação ISS Mais Um Sorriso
PORTUGAL
«Cada vez faz menos sentido falar de emigração»
José Cesário, Deputado do PSD
PORTUGAL
O Projeto de Mobilidade na CPLP
Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios estrangeiros
PORTUGAL
REDES SOCIAIS
GALERIA DE FOTOS
QUIZ