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A alheira que não era de Mirandela e vingou como símbolo económico
Revista PORT.COM • 25-Out-2016
A alheira que não era de Mirandela e vingou como símbolo económico



Todo o fumeiro transmontano tem alheiras, mas foi o nome de Mirandela que vingou, graças à centenária estação da linha do Tua, onde afluía gente de vários pontos da região a escoar produtos para os grandes centros.

Reza a história, que as alheiras que chegavam às messes do Exército, cantinas de grandes empresas e supermercados do Porto, Coimbra e Lisboa, nem eram de Mirandela. Porém, levavam o selo da estação e na volta as encomendas eram feitas com pedido de “alheira de Mirandela”.

Só no concelho de Mirandela, o enchido, eleito uma das maravilhas gastronómicas de Portugal, movimenta 30 milhões de euros por ano e dá emprego diretamente a 600 pessoas em cozinhas regionais, mas sobretudo nos 12 grandes produtores e fábricas.

De algumas destas fábricas saem 20 toneladas por dia, o que equivale a 100 mil alheiras, mais de dois terços para o mercado tradicional e algumas para exportação rumo a países europeus, como França, Luxemburgo ou Reino Unido, mas também Angola e Macau.

À alheira tradicional confecionada com pão, carne de porco e azeite, ou de carne de aves, adicionou-se inovação com alheiras de bacalhau, vegetarianas, de cogumelos, para doentes renais ou para crianças.

Há, porém, alheira e Alheira de Mirandela, a primeira é a corrente que sempre se confecionou e a segunda a certificada e a única que pode levar o nome de “Alheira de Mirandela”, com Indicação Geográfica Protegida (IGP) conferida este ano, e que só pode ser produzida no concelho transmontano.

Das diferentes formas de confeção, chegou-se a uma receita que obriga ao uso de produtos regionais certificados como a carne da raça suína autóctone Bísara ou o azeite com Denominação de Origem Protegida (DOP).

A alheira certificada é mais cara e pode custar seis ou sete euros o quilograma, o dobro do preço da corrente.

 

Brasil é um mercado desejado

O sucesso da alheira não terá sido alheio ao facto de ser um prato económico e que sacia, sendo por isso atrativo para as grandes cantinas industriais do Litoral, para onde migraram muitos transmontanos, defende Isidro Borges, filho de um dos primeiros fabricantes de alheira em Mirandela.

O cliente que procura a alheira certificada é o do mercado tradicional e ‘gourmet’ e Sónia, que dirige hoje em dia o negócio que os pais iniciaram há quase 30 anos, ficou “muito contente” com a lista de lojas de Lisboa nomeadas para o comércio tradicional mais antigo de que fazem parte clientes dela.

“É sinal de que nós estamos em parceria há muitos anos e tudo o que é bom está nesse tipo de comércio”, vinca a empresária, que dirige a primeira empresa certificada do distrito de Bragança e se formou em engenharia alimentar para estar mais bem preparada para o negócio.

Os últimos anos correram bem à alheira, que sempre viveu “do mercado da crise”.

“É um prato supereconómico, não chega a 90 cêntimos (por pessoa), e deixa saciado”, aponta, referindo-se a preços da alheira corrente.

Para manter a qualidade, a produtora não abre mão do preço, ainda que tenha de abdicar de contratos com grande superfícies e para exportação, que pedem barato.

O Brasil é o destino ambicionado por esta produtora, que espera possam ser ultrapassados alguns obstáculos, como taxas alfandegárias.

“A alheira sai de Portugal com um preço que lá vai triplicar e os ordenados no Brasil não permitem aceder ao produto”, observa.

Se conseguirem chegar ao Brasil, “aí sim, teria de haver associativismo, porque nenhuma das fábricas, só por si, teria capacidade de abastecer as quantidades que eles propõem”, alerta.


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