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António perdeu os filhos e recebeu apoio monetário de emigrantes nos EUA
Revista PORT.COM • 02-Out-2017
António perdeu os filhos e recebeu apoio monetário de emigrantes nos EUA



António Nunes, perdeu os dois filhos, a nora e um vizinho, no incêndio que começou em junho, em Pedrógão Grande, e foi o primeiro a receber um cheque do total de 180 mil euros, distribuídos ontem por emigrantes portugueses.

A primeira paragem foi no quartel dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera. Na rua, as pessoas aguardavam pela chegada dos emigrantes. Aos poucos, subiram para o primeiro andar do quartel, onde foram ocupando as cadeiras distribuídas pela sala.

As primeiras palavras foram proferidas por José Carlos Brito, um dos três emigrantes que se deslocou propositadamente para distribuir, em mão, os cheques da ajuda solidária, uma condição imposta pelos emigrantes que contribuíram para a campanha e que ficaram nos EUA.

"Os emigrantes estão um pouco queimados por contribuírem e depois não veem essas contribuições chegar às pessoas", explicou.

Após as apresentações formais e alguns esclarecimentos, começou a entrega dos cheques. O primeiro da lista foi António Nunes, que, aos 68 anos, perdeu os dois filhos, com 33 e 40 anos, a nora e um vizinho.

Sentado ao lado da esposa, vestida de negro, António Nunes levantou-se e, com os olhos lavados em lágrimas, dirigiu-se aos emigrantes que lhe entregaram o cheque. A emoção não tardou a apoderar-se de todos.

A cada nome que era chamado da lista que foi disponibilizada pelos bombeiros locais, uma vez que nenhum dos três municípios o fez, apesar da insistência dos emigrantes, ninguém continha as lágrimas.

"Não esperava esta atitude. Só me restam dois netos [um rapaz de 21 anos e uma rapariga de 16]. Os meus filhos, a nora e um vizinho morreram em Sarzedas de São Pedro", disse a custo.

José Carlos Brito adiantou que preferiam não estar ali: "Infelizmente a tragédia bateu-vos à porta. Isto não é nada. É uma gota no oceano, mas foi o que conseguimos".

Jack Costa explicou que inicialmente a ajuda, na qual começaram a trabalhar desde o primeiro domingo a seguir ao incêndio, era apenas para Pedrógão Grande, porque não se falava nem em Castanheira de Pera, nem em Figueiró dos Vinhos, apenas em Pedrógão.

"Tentámos fazer a entrega através dos municípios, mas isso não foi possível, pelo que tivemos de recorrer aos bombeiros para nos arranjarem a lista das pessoas, sobretudo, aquelas que perderam a primeira habitação", disse.

A entrega dos cheques repetiu-se e, a cada nome que era pronunciado na lista, a emoção repetia-se.

De Castanheira de Pera, os emigrantes seguiram para Figueiró dos Vinhos. Novamente, no salão do quartel dos bombeiros locais, Jack Costa, José Carlos Brito e Susana da Silva explicaram aos presentes todo o processo de angariação de fundos que decorreu junto da comunidade portuguesa nos EUA.

E, uma vez mais, contemplados e emigrantes emocionaram-se. Fez-se ainda um minuto de silêncio pelas vítimas mortais.

"Nós estamos longe, mas o nosso coração está sempre aqui, em Portugal", disse Jack Costa.

Adiantou ainda que a presença nestes dias em Portugal ficou também a dever-se à TAP, que disponibilizou bilhetes para eles se deslocarem e doou ainda mais alguns.

Durante a tarde, os emigrantes deslocaram-se também ao quartel dos bombeiros de Pedrógão Grande, onde se repetiu o gesto e, com a partilha de mais momentos de emoção.

"O que não nos mata, torna-nos mais fortes. É essa a nossa esperança. Se Deus quiser, nunca mais vão precisar de uma coisa como esta. Somos portugueses e vamos dar a volta por cima", concluiu Susana da Silva.

O incêndio que começou a 17 de junho, em Pedrógão Grande, provocou 64 mortos e mais de 200 feridos e só foi extinto uma semana depois.


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